CULTURA

A asa oculta da borboleta - Adriane Lima


Adalberto Souza

17/09/2017 20h58

 

Adriane Lima é uma poeta que se revela em cada verso do seu belo livro: A Asa Oculta da Borboleta (Ibrasa, 2015) logo no texto de introdução podemos ler que a escritora “tem o olhar poético, o amor à poesia, a sensibilidade órfã dos que amam a palavra, é poeta e musa, é vanguarda e respaldo”. Nada mais certeiro para descrever a escrita de Adriane. É só transitar entre seus escritos para isso ficar muito evidente.

Seu livro é quase um estudo cartográfico dos sentimentos ocultos na alma. Quase uma trilha onde a autora vai deixando pistas para serem encontradas e desvendar sutilmente o que nem mesmo conseguimos perceber. Sua escrita é clara e sua poética muitas vezes se confunde com a rotina diária de pensamentos em fluxos contínuos. Daqueles que ficam martelando e martelando até conseguir atenção máxima.

Adriane escreve com uma sensibilidade à flor da pele. No livro as imagens criadas são tão plausíveis que a identificação é imediata. “Às vezes a vida é tinta que escorre/ no chão já lavado/ é gente que morre em pleno feriado”. Uma clara leitura daqueles feriados sufocantes em casa, um domingo tedioso e um feriado da nossa própria vontade de ultrapassar a barreira do indizível.

Quase como um despertar das memórias dos sentidos, um aguçar da pele, dos olhos para as coisas deixadas inacabadas. Prontas para aflitivamente reacenderem. Quase uma constatação, uma aflição e uma certeza de que “Hoje ainda me pego/ não sabendo fritas os ovos / mas o estar só, já encaro de frente”.

O livro transita em vários pontos, tal como uma viagem da qual não tem uma volta precisa, pode-se passear pelos desníveis da alma como um voo errante de borboleta feita de sussurros, entre coisas que poderiam ter sido, ou deveriam ter sido, reminiscências de uma vida com “o humor encarnado/ em situações simplistas? Além de gestos infantis/ que um dia me levariam/ ao divã de um analista”.  

Um livro para se ter por perto, sempre. Um belo registro de uma poeta com sensibilidade e lirismo, tal como uma metamorfose de uma bela borboleta. 



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