CULTURA

A bulha poética de um certo Canário


Adalberto Souza

19/03/2015 09h02

Vamos falar de poesia. Mas, de uma poesia feita no dia a dia, uma poesia das coisas que nos rodeiam e por conseguinte nos completam. Uma poesia lírica e contumaz. É essa poesia que descobri no livro A Bulha Galinácea e os Escritos Galiformes (Edufal, 2013) de Tainan Costa Canário, com belas e intrigantes ilustrações do artista plástico Pedro Lucena. O livro foi contemplado pelo Programa de Incentivo à Cultura Literária.

Já no título uma estranheza que me fez pensar. O que seria a tal bulha galinácea? E quais seriam os escritos galiformes? Com esse espirito já aguçado, me lancei ao livro, e me surpreendi.
 
É como se em meu peito aportassem
Caravelas trazendo especiarias
Mas é só tua foto
Teu rosto
E a curva da saudade. (p. 67)
 
A poética do autor é simples sem ser simplista, seu alcance é aquela que fica martelando por muitas horas, corroendo, tentando ser compreendida, até a catarse necessária, de entendimento e assimilação. O livro é um daqueles companheiros que você dialoga, se encontra, se entrega sem reservas.
 
“De tão confortável que me sinto
não sei se este ônibus lotado
seis da tarde de segunda-feira
é um navio negreiro sobre rodas
ou um curral com ar condicionado.” (p. 33)
 

A poesia é densa e inquietante, um mergulho num lago plácido e caudaloso, superfície lisa e revolto logo abaixo. Canário, trata as palavras com irreverência e as traveste de um lirismo liberto das convenções. Sua escrita está aí para mostrar que é possível “virar a pele pelo avesso, te cozinhar em banho Maria. Depois vai passar a faca e remover as escamas” (p.15).
 
E não é apenas isso, esse virar do avesso é uma constante na poesia do autor, e não apenas no poema em questão. Seus versos são consistentes e convidativos a uma reflexão mais intensa. Nada fica e nada parece estar ali por acaso. O autor é um artificie em busca daquela palavra ideal que complete sua poética. E aquela palavra encaixada de forma sutil e as vezes enigmática, torna-se uma expressão cativante da obra, quase como uma constante, o uso intenso da palavra.
 
 “É novembro,
eu sei,
muito embora o calendário permaneça
a estática folha de fevereiro
final de carnaval o ano inteiro” (p.43)
 
 
O livro é dividido em duas partes, a Bulha Galinácea sendo a primeira, que intercala poemas com pequenos textos em prosa poética. Já, os Escritos Galiformes, que fecham o livro, são poemas mais breves e por isso mesmo mais urgentes.


 Ah! A Bulha é o som cardíaco, aquele som que o sangue faz ao encher o coração de vida, muito justo ao livro, enchendo páginas e páginas de vida, vibrante e corrente, como toda poesia deveria ser.  Uma leitura intensa, leve, ácida, doce. Recomendo a leitura e a releitura.

 

 

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