CULTURA

A Intrusa: Uma leitura de Bruno Azevêdo


Adalberto Souza

05/03/2015 09h26

Sempre fui um leitor voraz e feroz. Lia tudo o que me aparecia. Quando faltavam livros, saía em busca de bulas de remédios, bilhetes, capa de discos, algo para aplacar minha vontade de ler.

Numa dessas crises de falta de livros, numa sanha de procurar algo, deparo-me com a coleção escondida de Julias e Sabrinas de minha tia. Não deu outra, até ela descobrir que eu estava surrupiando seus livros, foi uma sucessão de amores desfeitos, descobertas mirabolantes, frases de efeitos e muito, muito romance impossível e reviravoltas vertiginosas para um gran finale feliz. Os tais livros que fizeram a alegria de muitas donzelas e donas de casa entediadas por décadas, tornaram minha leitura mais quente.

Do escândalo que a tia fez ao me ver de posse de seus amados livrinhos - hoje suspeito que era mais por ciúmes de suas preciosas estórias - ficou sempre a ideia do proibido. E isso foi saudosamente esquecido com outros tipos de leituras.

Outro dia me deparei com A Intrusa (Pitomba, 2013), do quadrinhista, músico e escritor maranhense Bruno Azevêdo. Uma releitura dos célebres livros. Nada menos que uma estórias de paixões violentas, clímax exaltados e êxtases delirantes. Uma espécie de tributo e homenagem a esses heróis e heroínas lagrimejantes e fogosos.

 

“Toda a situação era impensável. Tão absurda que só poderia existir como uma surpresa. Não esperava passar por aquilo... mas sou mulher e sei que existem três coisas na cama e na vida que a mulher vai ouvir sempre. Essas três coisas merecem a mesma resposta, com gestos ou palavras rudes ou suaves, que possam expressar descrença, desdém e sobretudo uma velada cumplicidade... a cumplicidade da mulher às mais inesperadas propostas, sem a qual é impossível viver com, para e pelo homem amado.” (p.11)

 

Mas essa releitura de Azevêdo foge do esquema mocinha apaixonada + príncipe garanhão encantado = final feliz, ele vai além, traz em seu livro um elemento que subverte o rumo açucarado dessa tríade. E essa intrusa faz toda a diferença.

Agora o público não é mais a tia dona de casa, e para esse público, Bruno escreve uma estória de amor moderna, sem medo das sensações despertadas pelas palavras. Ele mexe com os sentidos, no sentido literal da coisa. Vai até aquelas pulsões que comandam os desejos, revolve o mais lírico e também o mais sensual das personagens.

Um livro despojado onde o sexo e a volúpia são as forças que comandam as ações dos protagonistas. A tensão sexual muitas vezes é mais intensamente vivida que o próprio ato, fica sempre aquela sensação de desejo circulando entre as páginas.

 

 “Peço desculpas se pareço indelicada logo no início do meu relato. Não sou, em absoluto, uma mulher vulgar... mas não fui eu quem criei essas regras. Só aprendi a conviver com elas, como todas vocês fazem ou aprenderão a fazer. Essas três coisas são “só a cabecinha”, não vou fazer nada com você que você não queira” e “eu te respeito muito”.” (p.11)

 

A mocinha daquelas primeiras revistas, aos poucos deixa aquela inocência e entrega-se sem limites a envolvente e intrigante trama em que de repente é obrigada a viver. Muitos suspiros, muita sensualidade com e sem muita sutileza, uma trama instigante e apimentada, fazem desse livro uma leitura indispensável para quem quer se interessa por uma bela trama, um bom enredo.

O livro em um agradável formato pocket tem ilustrações do quadrinhista carioca Eduardo Arruda, a capa foi feita pelo francês Frédéric Boilet e a tipografia desta é da designer Luiza de Carli, a partir dos antigos títulos de Sabrina. Como um bônus, traz um belo ensaio sobre o romance popular para mulheres “Seios túrgidos e membros intumescidos”.

 

“Se você nunca ouviu uma destas frases, feche este livro. Você existe em um mundo amargo e fantasioso onde não deve haver espaço para o amor. Sendo esta uma história antes de tudo sobre o amor e as formas como este amor pode nos surpreender, a leitura não lhe agradará ou parecerá a narrativa de um universo extravagante e luxurioso ao qual você definitivamente não pertence e sobre o qual nutre opiniões pouco lisonjeiras.” (p.11)

 

Coloca Diana para tocar na vitrola, um abajur lilás, recosta nas almofadas de cetim no sofá com estampa de oncinha, uma batida de maracujá e se entregue aos prazeres da excitante estória de A Intrusa.

 

 

http://ugrapress.webstorelw.com.br/products/a-intrusa

 



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