CULTURA

A pele desses nossos desejos


Adalberto Souza

14/05/2015 10h20

Todos nós em algum momento já escutamos: o livro é melhor que o filme. De tanto ser dito isso tornou-se clichê. As nuances, o lirismo, a força dramática das personagens são melhores trabalhadas no papel. No cinema pelo tempo e pela forma de explorar a história, muitas vezes a trama urdida no livro vai sendo diluída até se transformar em outra coisa. Com raras e boas exceções.

Numa dessas noites insones, ainda no tempo da Sessão Coruja, sem nada para ler, entre um zapping e outro, eis que descubro um filme: A Pele do Desejo. Desde o primeiro acorde para os créditos iniciais num crescendo até o belo poema que abre o filme, fui fisgado: 

“Antes de você entrar na minha vida eu acreditava que cada dia seria sempre o mesmo e que seria assim até que eu morresse. Desde que te amei, não me peça para que eu explique, eu só sei que te queria em meus braços de tempos em tempos se você também quisesse. Só pensar que você existe em algum lugar e que você pensa em mim as vezes… me ajuda a viver.”

Pouco tempo depois, descobri que o roteiro era baseado no livro homônimo da escritora, jornalista e feminista francesa Benoîte Groult.  A história de um pescador escocês e uma intelectual francesa, contada por anos a fio. Altos e baixos, despedidas e encontros, o relata de mais de trinta anos da vida dos dois. 

Vidas que separadas seguem caminhos distintos, trabalhos, filhos, conquistas. E que os impossibilita de estarem juntos. E com isso eles seguem separados. O livro trata daqueles sentimentos que nos confrontam e tudo aquilo que em algum momento acreditamos ser diametralmente diferente de nós, o sentimento idealizado que por temor, medo ou preconceitos, terminamos não nos permitindo viver.


O ímpeto da juventude aos poucos dando lugar a vida centrada em outros interesses. Mas a paixão de adolescência sobrevive a tudo. E eles tem apenas uma semana por ano para estarem juntos.

“Eu não pensava em você a anos, mas agora o seu espirito tornava para me despertar. Fui invadida por um profundo sentimento de perda. Seria o presságio do inverno que subitamente tratou de envenenar o fim do verão para mim, ou, a infinita importância que eu costumava representar em sua vida. Você havia se tornado real pra mim novamente depois de todos esses anos como se você estivesse adormecido no meu sangue e agora a solidão me vinha à tona e me tocava com um desejo que tanto me incomodava quanto me entristecia.”

Dos encontros anuais, os embates travados pelas lacunas que os separam são o ponto de maior tensão e também de maior lirismo. Desses primeiros encontros até o último deles, sempre acompanhados de muito drama e impossibilidades eles vão seguindo em frente, juntos/separados. Não existe pieguices no livro, o sentimento é o que é, doce, cruel, implacável, terno, imprevisível e imprescindível. Uma experiência lírica das mais impressionantes. 
A autora consegue trazer a parte mais cruel e intensa de um amor que era para ter acontecido, e por todas as impossibilidades tornou-se algo inacessível. Talvez por isso mesmo tão terno e cruel. O livro é recheado de bons diálogos, a química entre os protagonistas é intensa.  “Uma pequena obra-prima sobre a necessidade do “outro” que criamos em nós mesmos e que só o tempo será capaz de nos dizer o que ela significou.” 

“Ah, meu amor, sejamos verdadeiros Um com o outro! 
Pois o mundo, que parece 
À nossa frente uma paisagem de sonho, 
Tão nova, tão bela, tão variada, 
Em realidade não tem nem luz, nem amor, nem alegria, 
Nem certeza, nem paz, nem qualquer consolação.” 
(Trecho do poema “Dover Beach”, de Matthew Arnold, uma referência nas vozes dos protagonistas)

Por tudo isso A Pele do Desejo, seja em  livro ou filme é uma experiência inesquecível.



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