CULTURA

Aquele inferno que são os outros


Adalberto Souza

28/05/2015 10h16

“Nos raros encontros, inevitáveis, era como assistir a um filme de suspense, de terror, eliminando o som. Ninguém escuta nada, mas sabe-se que a qualquer momento pode acontecer algo inesperado e provocar um tremendo susto.” (p. 31)


O primeiro contato que tive com a literatura de José Waldemar de Oliveira foi através do belo e impressionante Vapor Barato (7Letras, 2006). Uma coletânea onde o autor de forma única discorre em 13 contos as mais variadas situações, envolve seus protagonistas em tramas urdidas para levar o leitor a máxima tensão. Essa mesma forma de escrever, contundente e intensa ele também emprega em seu romance O Inferno São Os Outros. Romance selecionado pelo Programa de Incentivo à Cultura Literária 2013, de Alagoas, editado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Assim mesmo, o autor valendo-se da prerrogativa de Sartre, de que indubitavelmente o outro é sempre o causador dos males que afligem nossa própria vida, de que se não fosse a influência ou interferência dos outros seriamos felizes, o outro, sempre ele, seria o causador do nosso inferno particular.


(...) “sempre lutou com todas as suas forças para suster suas cóleras, seus rancores, suas revoltas, mas agora que uma porta foi abruptamente aberta, a do cadeado mais forte, receia que suas outras neuroses não vão mais se conter, as outras portas se escancararão, e por elas escapulirão todos os fantasmas psicopatas...” (p. 51)

O autor, para contar a história de um protagonista traumatizado pela intensa castração parental, serve-se de uma perturbadora e esquizofrênica sucessão fatídica de tirar o fôlego, traça uma história angustiante onde a morte e o delírio são parceiros bem próximos. 


O livro está dividido entre O inferno e Os outros. A narrativa se desenvolve em grande parte na terceira pessoa, o que dá ao leitor livre acesso a mente perturbada do narrador. E o que sobra dessa intricada e elaborada narrativa que, numa linguagem simples e crua tão presente no livro, leva o leitor a alma atormentada do protagonista traumatizado.

 

“A dor reina em suas vísceras, assola o sistema nervoso, insensibilizando-o. a fúria medonha ainda corre dentro de si. Que ninguém lhe cobre um gesto humano nesse instante. Perdeu a razão, é só um bicho, um bicho selvagem.” (p.88)

Uma criatura que estava “autotrucidando-se” galopantemente, resumindo sua vida em longas caminhadas pela praia, para pensar. Ah! Esse cavalo selvagem em plena disparada que é o pensar desenfreado, a angústia, o medo, a perseguição invisível de mãos pegajosas e infernais. As intensas redes do pensamento levando ao acentuar da loucura. E bem rápido. 

Aos poucos a vida desse ser atormentado vai sendo descortinada, vítima de um pai monstro que trancava os filhos num cubículo que servia de despensa, deixando-os lá, chorando e suando num calor abrasador até quase a exaustão. Com a certeza que quando aquela porta abrisse a surra só não seria pior do que o silêncio e a espera no escuro daquele cubículo. Uma cena angustiante, claustrofobicamente construída pelo autor, certamente para dar aquela impressão de gelar o sentimento, do suor frio da antecipação pelo castigo esperado. O sofrimento compartilhado toma o leitor numa empatia total com os pequenos prisioneiros, feito passarinhos esperando o voo inclemente do predador "frio de sentimentos".

Não espere uma literatura "fofinha" em O Inferno são os Outros, o que o autor escreve é um soco no estômago. Algo que retorce o sentimento do leitor. Cru, verdadeiro, pungente. Cada virada de página traz uma incomoda sensação de algo que de tão real parece estar acontecendo ali do lado. É literatura hardcore. O lirismo cruel do narrador é uma catarse de todas as crueldades sofridas ao longo de uma vida inteira de tortura física e psíquica. Com um final não tão fácil. 

Aventure-se nas entrelinhas do livro. Uma viagem da qual não se volta imune.

“Gritos de horror, de desespero. Ele não escuta. Ele não escuta nada.” (p.193)



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