CULTURA

Mesmo Sem Dinheiro Comprei Um Esqueite Novo


Adalberto Souza

11/06/2015 10h40

o que de tudo ficará? literatura?
para que diabos serve a literatura
quando você está feliz e tem amor?
(amar é algo que não se completa)” (p. 12)

E se de repente você fosse envolvido numa onda de poesia? E se numa manobra radical no caminho daquele esqueite novo houvesse um poema? E que tal, mesmo sem dinheiro, empreender uma viagem cheia de pequenas coisas que enchem os olhos de lirismo? Tudo embalado com impressionantes poemas feitos com maestria!


É isso que propõe Paulo Scott no seu livro Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo (Companhia das Letras, 2014). Uma viagem pelas ruas poéticas de uma literatura feita para inquietar e encontrar. Impossível não se perceber nos versos do livro. 
Scott faz um trator polinizar margaridas e faz isso tudo ter sentido. Mas não busque um sentido óbvio, ele vai deixando pistas onde o leitor vai se perdendo e se achando. Seus versos são desconcertantes e ao mesmo tempo trazem um vigor que mostra como a poesia pode dilacerar e restaurar.

“doçura que vai me cariando
as olheiras enquanto as olheiras
viram óculos de nadar” (p.28)

A lírica do autor é poderosa. Sua verve é uma construção, uma lição de como se fazer poesia. E nada escapa desse fazer poético. Sejam “títulos protestados” ou mesmo “advérbios de pequeno corpo”. Em tudo, no mais inusitado que o leitor possa pensar, o autor encontra uma simbiótica relação. E se alguém duvidar ele ainda vai descortinar “cento e dezesseis e uma índia fantasma”. 


Com dinheiro ou sem, com esqueite novo ou velho, Paulo Scott vai fazendo versos como quem brinca com as palavras, como se subordinasse o sentido delas a seu bel prazer. Ele usa a palavra como ofício, seus poemas transmitem essa intimidade que é partilhada com o leitor. 


E isso é uma constante em todo o livro. Não existem altos e baixos, os versos de Scott são bem construídos, é o contrário de alguns livros de poemas que começam bem e vão perdendo o fôlego até se diluírem, os poemas do autor conseguem manter a tensão e o diálogo com o leitor desde o início e, o melhor de tudo, quando fechada a última página fica na boca aquele desejo de querer mais. E com urgência, assim como urgentes são os belos versos desse livro.


“espera-se do poeta que seja pedra
e, sendo pedra, aguarde à mesa até que outros
cansem desse jogo de equipes que é a solidão
até que (sendo invariavelmente pedra)
seja pedra de verdade e algum mais desavisado
venha limpá-lo com água, desinfetante e esfregão” (p. 22)

 

http://www.amazon.com.br/Mesmo-Dinheiro-Comprei-Esqueite-Novo/dp/8535924698/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1434031226&sr=1-1&keywords=paulo+scott

 

 

 



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