CULTURA

O Ano dos Mortos - Lucas Barroso


Adalberto Souza

08/12/2016 22h49

"Flores, flores para os mortos..."


 

Existe um dia em que os mortos recebem permissão de caminhar entre os vivos. Resolver o que ficou pendente, rever seus parentes e a cidade que lhes viu fenecer. Para a cultura de certos países, esse dia é comemorado com festas e guloseimas, piqueniques em pleno cemitério e danças para saudar a inevitável.

Nesse dia, tradicionalmente, caveiras de açúcar com o nome dos mortos são distribuídas para todos. Guloseimas aguardadas a festa inteira. Pois esses doces só podem ser degustados no dia destinado aos mortos, como forma de respeito e tradição seu feitio e consumo obedece a essa regra. Os mortos só permitem seus doces, no seu dia.

Lucas Barroso transforma o dia em ano, o Ano dos Mortos (Bartlebee, 2016). Agora eles não apenas terão um dia para estar entre os vivos, mas 365 para passear e visitar seus entes queridos ou não. Aqui as guloseimas não são de açúcar, são poemas, que podem ser lidos o ano inteiro.

Transitando entre gêneros, o autor vem do impressionante romance Virose (BARTLEBEE, 2013), e prova que as letras são seu grande trunfo, seja numa estória mais longa, seja na singeleza explosiva de um poema.

Nesse ano, os mortos não se contentam com singelas caveiras adocicadas. Seu alimento será magoa, saudade, desprezo. Num tempo que os viu com fôlego pela última vez. Nesse dia livre da metafisica mortalha que embrulha seus sonos, eles circulam entre os vivos, transmutados em sentimentos esquecidos, guardados e prontos para eclodirem.

Barroso transita por entre mundos, sua escrita vertiginosa torna palpável os pulsares como uma despedida do papel em branco, que não quer mais ser oco de palavras, "as letras correm" pelo papel, correm os olhos, correm as vontades, sem descanso, "trazendo o que ninguém tem", "suspiros suspensos" do que não tem mais volta.

E depois de tudo, dobrar as páginas, cruzar com os mortos, o que resta ao leitor é agradecer "por estar vivo." Por não mais sentir-se só, nesse ano, o dos mortos, Lucas Barroso lhe fará companhia. O livro não acaba quando chega ao fim, as palavras encontram eco em tantas memórias que trazem outras tantas deixando a impressão que o livro acabou de decifrar o leitor.

Mesmo que essas memórias não guardem nada, "apenas rumina e nos cospe fora".

E esse é o grande trunfo do escritor, criar uma sutil intimidade com o leitor. Uma intimidade de indiferenças e medos. As tantas solidões, inventadas ou não, também são as solidões de quem tem coragem de enfrentar os seus próprios sentimentos mortos ou não. E viva o Ano dos Mortos! 

Serviço:

  • Livro: O Ano dos Mortos
  • Ano de publicação: 2016
  • Editora: Bartlebee
  • Contato com o autor: https://www.facebook.com/lucasbarroso

 



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