CULTURA

O Diário de Frida Kahlo – um autorretrato íntimo


Adalberto Souza

25/06/2018 09h21

A obra de Frida Kahlo é marcada pela sua experiência com a dor, assim como sua vida também. A relação conturbada com seu marido, levou a artista a inúmeros percalços em sua carreira. Dessa relação e de sua vivência com a limitação física, nasce um relato pictórico e literário que nos dá a dimensão dessa intensidade em que vivia mergulhada. O Diário de Frida Kahlo – um autorretrato íntimo (José Olympio Editora, 1995) é composto por 170 páginas, escrito em sua maioria com tintas berrantes, repleto de desenhos perturbadores e várias aquarelas, muitos esboços e inúmeros símbolos pré-colombianos, muitas anotações e poemas. Contam seus últimos anos da vida, misturando memórias recentes com fatos e acontecimentos de seu passado e de sua experiência matrimonial.

O Diário compreende o período entre 1944 e 1954. Repleto de uma lírica advinda de observar e transcrever o que sentia e o que se passava ao seu redor, principalmente em relação aos seus temas mais caros, seu marido, sua cultura e sua devoção a ambos.

 

Entender os olhares

de nossos fechados.

= Estás presente, intangível,

e és todo o universo que formo

no espaço de meu quarto.

Tua ausência brota

tremendo no ruído do relógio,

no pulsar da luz;

respiras pelo espelho. De ti

até minhas mãos, percorro

todo o teu corpo, e estou contigo

um minuto e estou comigo

um momento. E meu sangue

é o milagre que flui

nas veias do ar do meu coração

para o teu. (p.22)

 

O mundo de Frida Kahlo, tal como expresso em seus poemas, é repleto de angústias, saudades, tempo, remorso e raiva, por ter sido traída por seu grande amor, e mais ainda por ter sido traída por seu próprio corpo. Sua indignação pode ser notada nos vários desenhos espalhados pelas páginas do livro.

Esse comportamento também é amplamente usado no Diário, um fluxo de consciência, de ideias, desenhos e rabiscos, como se fossem jogados às pressas em algumas lâminas ou mais pensados e trabalhados em outras, mas todas seguindo um fluxo de consciência bastante veloz e algumas vezes sem muita coerência. Como se tivesse pressa de registrar o que via ou pensava, para não perder o fluxo do que lhe era assomava o pensamento. Quase como um resumo das mesmas características do arsenal imagético que povoa suas pinturas.

Muitos desses poemas trazem Diego como sua razão de viver e em muitos casos era ele quem lhe servia de referência, tanto na escrita quanto na sua pintura. Sua arte servia para expressar sua alma.

 

Diego começo

Diego construtor

Diego meu menino

Diego meu namorado

Diego meu pintor

Diego meu amante

Diego “meu esposo”

Diego meu amigo

Diego minha mãe

Diego meu pai

Diego meu filho

Diego = eu =

Diego Universo

                  Diversidade na unidade (p. 60).

 

Frida também era dona de uma personalidade atrativa. Sua forma de ver o mundo e sendo dona de uma inteligência que permitia interagir de forma rápida e dinâmica com o circundante, trouxe para ela muitos amores, e fossem homens ou mulheres, ela também teve seus relacionamentos. Mas Rivera inegavelmente foi seu amor mais cruel e verdadeiro, somente para dar uma ideia, num dos momentos em que o marido pintava o painel Insurreição no mural Balada da Revolução Proletária, que fica no prédio do Ministério de Educação, olhando para sua esposa, ele teria dito: “Você tem cara de cachorro”, e Frida, sem se abalar, teria respondido: “E você tem cara de sapo”.

 

Compreendes tudo. A união definitiva.

Sofres, gozas amas te alegra beijas

ris. Nascemos para fazer as mesmas

coisas. Para descobrir

e amar o descoberto, oculto.

Com o medo de sempre perder.

És belo. Dou-te a tua beleza.

És suave em tua enorme tristeza.

Simples amargura. Armas

contra tudo que te acorrenta.

Te amas. Me amas como centro.

Eu como tu mesmo. Conseguirei

ter apenas a maravilhosa lembrança

de que passaste pela minha vida

semeando joias que só recolherei

quando tiveres ido. Não existe distância.

Existe apenas tempo. Ouve-me.

Acaricia-me com aquilo que procuraste

não encontrastes. Vou para ti

e para mim. Como toda canção já vista (p. 52)

 

Em uma das suas últimas frases escritas no Diário, ela expressa toda sua angústia e sua mais absoluta falta de esperança com tudo e com todos, seu enorme desejo de deixar a vida e com isso acabar, sem uma única chance de voltar seja lá como for. Em seus momentos finais, sua vontade expressada com a seguinte frase: ''Espero a partida com alegria... e espero nunca mais voltar...”.

Enfim, sua memória, seu trabalho, sobreviveu a sua partida e se depender de toda a influência, encanto e mistério que ainda hoje rodeiam sua vida, ela viverá atemporalmente. Seja através de seus autorretratos vistos em museus espalhados por todo o mundo, seja através da art pop que cultua sua imagem como ícone, o certo é pensar que Frida Kahlo se tornou o centro de uma estética lírica e onírica, criada e vivida por ela mesma.

 



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