CULTURA

O lugar longe-perto de Sérgio Prado Moura


Adalberto Souza

30/04/2015 08h23

Compreendi naquele dia que não deveria voltar às ruinas, nem mesmo em palavras. Como o mato fez com o cadáver da velha casa, sepultei aquelas lembranças no fundo da memória por quase trinta anos. (PRADO, 2014, p.18)

Sérgio Prado Moura é um escritor fantástico, e não me refiro apenas ao teor de seu belo livro, Apuê, vencedor do Programa de Incentivo à Cultura Literária de 2014, promovido pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Seu grande trunfo é a sua forma de narrar. Em sua escrita os acontecimentos mais corriqueiros se transformam em enigmáticos ganchos para situações mais intensas e imaginativas. E de imaginação o autor entende bem.

Imaginar, no sentido estrito da palavra, significa criar imagens na mente, quadros que dão a ideia imagética das coisas. Os contos do livro são praticamente interposições de quadros que avançam e levam o leitor a criar toda uma estrutura narrativa clara e fílmica, um roteiro de acontecimentos interpostos que seguem a narração límpida do autor.

Prado Moura escreve de forma caudalosa, intensa, depois de passadas algumas páginas não tem como parar. Seu fluxo é constante e ininterrupto, ideias, coisas e situações que avançam e se desdobram e a única vontade é saber logo o que vem na próxima página. Uma vontade de correr até o fim e dar uma olhada, assim como se ninguém visse, e voltar como quem não sabe o que vai acontecer. A leitura de Apuê é intensa e enigmática, como a Estrangeira, personagem que abre o primeiro conto do livro. 

O narrador parece estar ao lado do leitor, numa conversa, em que busca trazer mais mistério a narrativa adentrando em várias falas. E segue tomando um café e lembrando de um velho amigo. Clara intenção de criar uma relação de cumplicidade, o narrador se intromete em várias falas, para explicar ou trazer mais mistério a narrativa. E essa cumplicidade o autor também busca numa clara intertextualidade com o mestre Guimarães Rosa, arma um combate entre Mestre Benedito, co-protagonista do conto Lumes, e o famigerado Hermógenes, junto com seu bando, o grande vilão de Grande Sertão: Veredas.

A unicidade dos seis contos do livro de forma harmoniosa, mesmo cada um com uma temática bastante diversificada, traz coerência ao livro. E cumpre o que promete, leva o leitor em uma viagem cheia de pistas e entrelinhas onde menos explicações permite ao leitor diversas possibilidades interpretativas.

Cada conto ocupa seu próprio lugar no todo narrativo que Apuê apresenta. Talvez de forma proposital a escolha de como os contos de sucedem reforçam o clima fantasmagórico, fantástico. Algumas situações inexplicáveis e intrigantes permeiam o enredo dos contos e isso é o que deixa tudo mais interessante e surpreendente.

E o melhor de tudo é que a escrita do autor faz algumas situações parecerem verossímeis, por mais inacreditáveis que sejam. Sua escrita é solar, mesmo tratando de coisas que de tão absurdas, sombrias, passam a ser minimamente duvidosas e num estalo o leitor pode se perguntar: será? Essa sensação é uma constante em todo o livro. Prova disso é o impressionante cemitério/lixeiro em uma paradisíaca e indeterminada praia, que poderia ser qualquer uma, no conto A Dama do Mar.

Enfim, um convite ao mistério e a fantasia. Apuê significa um lugar longe, mas, aconselho a acompanhar a trajetória de Sergio Prado Moura bem de perto, essa bela estreia promete uma carreira pontuada de intensas estórias que vão ainda trazer muito o que pensar.

“Começou a chover de novo. Uma chuva fina e doce. A terra exalava um cheiro amadeirado e, do mar, vinha na maresia uma fragrância confusa, ora sal, ora perfume. Ventava, e parecia ventar flores, as nuvens estavam alaranjadas, com riscos de rosa. Um raio, outro, trovões em rajada. A chuva engrossou, e muito. Barcos, homens e tudo ao longe sumiram atrás da cortina cinza de agua.” (PRADO, 2014, p.71)

 



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