CULTURA

O Paraíso de Cada Um – Hamilton Malheiros


Adalberto Souza

22/12/2016 20h13

 

                A arte imita a vida ou a vida imita a arte? E se a arte existe porque a vida não basta, quanto de realidade ou ficção “O Paraíso de cada um” de Hamilton Malheiros (2015) nos mostra?

            Um juiz apaixonado pelo que faz e frequentemente assaltado pelos “fantasmas” julgados por ele. Sendo conduzido pelo seu lado mais humano e agindo de acordo com suas emoções para determinar o que é certo ou errado, qual lado é o da justiça ou o limite entre a crueldade e a indiferença do sistema judiciário?

            O livro é composto por histórias que se entrelaçam e cada personagem surgida na trama tem uma outra função em partes distintas do enredo, tal como o fio condutor dessas tantas histórias que se cruzam. Um tecido elegante de situações.

            O fôlego do autor é considerável e sua forma de encadear as tramas paralelas que entrecruzam o caminho do Juiz Jonas também o é. O interesse vem brotando aos poucos, devido a empatia que o autor cria em cada um de seus protagonistas, e de repente surge aquela dúvida, aquela preocupação “o que terá acontecido a essa personagem? ” E isso é uma constante no livro. As criações do autor são verossímeis e parecem com aquele vizinho, aquele amigo, aquela pessoa conhecida que lembramos/esquecemos frequentemente.

            Culpa, medo, solidão, sentimentos que parecem não fazer parte da rotina visível do protagonista, são frequentes em cada passo dado. A máscara social é muitas vezes suplantada por sua enorme descrença na natureza humana e na capacidade de alguns em cometer barbaridades impostas a outros. Isso apenas é sanado em sua relação com seus familiares. A rotina judiciaria é acachapante (fictícia ou não) e aos poucos mostra toda sua carga nas várias facetas de Jonas Medeiros.

Não tem como não se deixar envolver por Jonas e seu assistente Daniel. Em o Paraíso de Cada Um, a leitura nos faz refletir sobre o cotidiano da magistratura trabalhista. Além disso Hamilton Malheiros demonstra um considerável conhecimento de cinema visto que o livro é recheado de citações a filmes clássicos e contemporâneos, e creio que por esse mesmo motivo o autor não esteja preocupado com o tom politicamente correto em sua trama.

Um desfecho surpreendente e talvez propositadamente urgente em suas várias possibilidades, possibilidades essas que o leitor possivelmente irá se deparar e irá voltar várias vezes a história do Juiz Medeiros para tentar respondê-las.

            Um final silencioso, assim como imagino deve ser a antecedência da caneta no papel de quem detém em suas mãos o destino de tantos outros. A arte imita a vida ou é imitada e limitada por ela? Agora cabe ao leitor responder a essa e as tantas outras perguntas que parecem brotar do livro.

 

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