CULTURA

Poematório - Eduardo Ruiz


Adalberto Souza

12/06/2018 10h43

A poesia de Eduardo Ruiz é um fluxo constante em direção ao sentimento. O autor é dramaturgo, artista plástico, ator e poeta. Poematório (Colmeia Livros, 2018) é seu segundo livro.

Nesse livro, que é o segundo do autor, cada página é uma antecipação para um próximo momento de sutileza e lirismo. Revelando aquele sentimento que está ali, latente e aparentemente escondido. Pronto para romper a frágil barreira imposta para conter aquela magia guardada, aquela saudade pronta para rasgar a segurança das coisas que são abandonadas, mas não nos abandonam. O livro traça uma cartografia do sentir, contorções e constatações de que muito ainda precisa ser expurgado para recomeçar.

            Numa verdadeira viagem pela alma humana, e em seus recônditos mais prementes, Ruiz vai levando o leitor por trilhas e recantos que de onde o encontro consigo mesmo é somente a única condição para sair ileso dessa angustiante/reveladora situação em que o sentimento urgente implora por respostas.

 

“Então vai embora, amor

É melhor do que eu viver preso na triste percepção de que

Sua alma já foi

E esqueceu seu corpo aqui.” (p.21)

 

            Os poemas não obedecem uma ordem, nem cronologia, e muitas vezes na leitura se revelam uma conversa com um amigo, onde quase soluços, entremeados de pausas para que o outro compreenda o que se desvenda na indistinta face aparente do sentir.

São narrativas passionais, daquelas que impregnadas de nós mesmos, são proferidas entre segredos quase de confessionário. E que incomodam. E em algum momento são confessados ao amigo, ao vizinho, ao motorista do Uber. Sim porque o que mais importa é falar sobre partidas, voltas, o que deixa de ter sentido em algum momento.

 

“Eu sei, eu sei, eu sei...

Mas eu adoraria não saber

Que você não está  mais aqui

Pra dividir essas duvidas comigo.” (p.50)

 

Cada verso vem mostrar um pouco do que transfigura o sentimento, aqueles mesmos que tanto podem ser tormentosos quanto plácidos e enganosos, escondendo na superfície aparentemente calma, ilustrativos de uma ebulição interior.

Poematório trata o tempo como se ele fosse flexível e dobrável ao sabor das lembranças. Essas, são impetuosas e com trânsito livre entre as ininteligíveis dobras das memorias.

 

“Eu vi, na marca de sua boca, na borda

Da xicara de chá do café de hoje de manhã que

Você vai embora...

Talvez você nem saiba ainda quando e nem como vai

Mas quem fica pressente o vazio.” (p.80)

 

                Da viagem lírica proposta por Eduardo Ruiz não dá para sair incólume. Seus poemas ecoam por muito tempo nas lembranças reviradas que com certeza ele irá despertar. Um livro inesquecível.

 

 



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