Fim da Revista Íntima Vexatória: Um Avanço Decisivo pelos Direitos Humanos no Sistema Prisional
É imprescindível que a transição ocorra de forma organizada, acompanhada de investimentos adequados e treinamento das equipes responsáveis

Na mais recente decisão unânime, o Supremo Tribunal Federal (STF) decretou o fim da prática de revista íntima vexatória em presídios, marcando um importante avanço na proteção dos direitos humanos no Brasil. Essa decisão não só põe fim a um procedimento degradante, mas também reafirma o compromisso do Estado com a dignidade dos cidadãos, mesmo dentro dos muros do sistema prisional.
Uma Prática Desumana e Injustificável
Por décadas, a revista íntima – que exige a desnudação total e a inspeção minuciosa dos visitantes – foi utilizada como ferramenta de segurança. No entanto, organizações de direitos humanos e especialistas em segurança criticavam veementemente o método, afirmando que a prática é não só invasiva, mas essencialmente humilhante. Ao impor uma experiência degradante, a medida viola princípios básicos de dignidade e respeito, ampliando o estigma e a exclusão social que já assolam tanto os presos quanto seus familiares e amigos.
A Decisão do STF e Seus Impactos
O STF, ao declarar a inconstitucionalidade das revistas íntimas vexatórias, estabeleceu que quaisquer provas obtidas por meio desse procedimento não poderão ser utilizadas, salvo em casos excepcionais autorizados judicialmente. Além disso, o tribunal determinou um prazo de 24 meses para que os estabelecimentos penais se adaptem, substituindo as revistas invasivas por métodos modernos e menos intrusivos, como scanners corporais, esteiras de raio-x e detectores de metais.
Essa transição para tecnologias de inspeção não apenas moderniza os procedimentos de segurança, mas também promove um ambiente de respeito aos direitos fundamentais. A medida se alinha às melhores práticas internacionais, oferecendo um modelo que pode ser adotado em outros países que enfrentam desafios semelhantes na administração de suas unidades prisionais.
O Caminho para a Humanização do Sistema Prisional
A decisão do STF é, sem dúvida, um marco para a humanização do sistema prisional brasileiro. Ao acabar com práticas que desumanizam e estigmatizam os indivíduos envolvidos, o país dá um passo significativo rumo a um sistema mais justo e respeitoso. Contudo, a eficácia dessa mudança dependerá, em grande parte, da implementação e fiscalização rigorosa das novas tecnologias. É imprescindível que a transição ocorra de forma organizada, acompanhada de investimentos adequados e treinamento das equipes responsáveis.
Além disso, a participação da sociedade civil e de organizações de direitos humanos será crucial para monitorar e garantir que os novos procedimentos respeitem os princípios de dignidade e segurança, sem abrir margem para abusos ou práticas que possam reproduzir a humilhação de outras formas.
Conclusão
A decisão do STF representa muito mais do que uma mera mudança de procedimentos; ela simboliza a vitória da dignidade sobre a humilhação, da modernização sobre práticas arcaicas e, sobretudo, do respeito aos direitos humanos. É um momento de reflexão sobre como o sistema de segurança pode e deve evoluir, sem abrir mão dos valores que fundamentam uma sociedade democrática e justa.
Ao abolir a revista íntima vexatória, o STF não apenas corrigiu uma injustiça histórica, mas também abriu caminho para que o Brasil adote medidas que realmente protejam a integridade física e moral de todos os cidadãos, transformando o ambiente prisional em um espaço que respeite e promova os direitos fundamentais. Essa decisão, portanto, deve ser vista como um convite à modernização e à humanização, reafirmando que segurança e dignidade caminham juntas na construção de um país mais justo.

Sandra Gomes é mãe, mulherista e ativista social. Advogada Criminal, Pós Graduanda em Direito Penal e Processual Penal, Pós Graduanda em Direito Médico. É ex Presidente da Comissão da Igualdade Racial da Abracrim AL e Ex Vice Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/AL.