CULTURA

A voz lírica e a voz popular - Eduardo Xavier


Adalberto Souza

23/06/2020 09h47

Essa semana o blog vem com mais uma excelente contribuição do Professor Eduardo Xavier, confiram:

 

Popularmente se diz que toda “voz de ópera”, como é conhecida a voz lírica ou erudita, é igual,  “é uma música do grito”! Vindo os ataques não apenas das camadas populares, mas também das mais abastadas, trata-se mesmo de ignorância e prevenção (em outras palavras, desconhecimento que leva ao preconceito), fenômeno que não é de hoje! Mas o que mesmo distingue a voz lírica da popular? Ora, se os aparelhos, ou efetores, que contribuem para a fonação são os mesmos num cantor popular e num erudito, o dito cantor lírico, por que raios a voz deste se distingue da voz daquele? A resposta é simples: a cientificidade aplicada à arte! O cantor popular usa a sua voz na menor potência que ela lhe poderia lhe proporcionar, já que o seu canto não exige maiores dificuldades e só cantam com microfones. Não cuidam da respiração nem usam das notas muito graves ou agudas, muito menos se preocupam com estilo e mesmo de interpretação. O canto lírico, porque une a ciência (não a da tão em voga OMS, vale ressaltar) à arte, não prescinde dos estudos continuados da respiração, do “alargamento” da extensão vocal, ou seja, as possibilidades do cantor ir às notas mais graves como às agudas de sua extensão, exercícios de rapidez vocal, técnicas de como executar notas muito agudas cantando-as muito docemente (pianíssimo), entre outras, além da prática da interpretação de repertório, até mesmo na distinção de compositor dentro de um mesmo período histórico. Por exemplo, não se canta Giuseppe Verdi (1813-1901) como se cantasse Richard Wagner (1813-1883): pode até ser o mesmo cantor ou cantora, mas a forma, ou estilo de cantar é bem diferente. Não se canta uma peça do século XVII do mesmo modo como se canta uma do século XIX e mais, não se canta uma canção artística, o Lied (Canção, em alemão) como se canta uma ária de ópera, que também não deixa de ser uma canção, mas inserida no contexto dramático de uma ópera. E mais, o desenvolvimento da potência vocal (aliada da impostação, imprópria ao canto popular), já que cantam em teatros para até 3 mil pessoas, sem o uso do microfone, algo impossível para um cantor popular! O canto popular não explora a respiração, não existe maior exploração da tessitura (ou seja, a distância entre a nota mais grave à mais aguda de uma peça); não existe no canto popular o uso de artifícios técnicos como trinados, mordentes, grupetos, etc., já que o canto popular é direto, rápido e conciso. O canto lírico exige maior expressividade e por isso carece de maiores recursos nesse sentido. Algo que o canto popular não explora é a interpretação da palavra, condição sine qua non do canto lírico. Os cantores populares destas últimas gerações, muitos não sabem nem o que é isso, já que o que cantam não sobe mais alto que uma barra de rodapé, vide o recente repertório. Mas que isto não seja motivo de choque para o leitor: ouçam apenas dois cantores populares da chamada Era de Ouro do Rádio, Elizeth Cardoso (1920-1990) e Cauby Peixoto (1931-2016) e se deixe levar pelas asas do grande canto popular! Mas por que disto? Ah, os tempos eram outros e as exigências de estilo e estética eram muito mais apuradas e refinadas. Muito do canto popular brasileiro dos anos 30 ao 50 tem um dedinho da influência do canto lírico com base na “redondeza” da voz, nos sons mais doces, nas frases ligadas (legato) nas canções românticas, os sambas-canções ou boleros, tudo isso muito caro à técnica do canto lírico. Até as canções mais saracoteadas, como “Nega Maluca” (1955), de Evaldo Rui e Fernando Lobo, interpretada por Linda Batista (1919-1988) ou “Quem sabe da minha vida sou eu” (1941), de Alpheu de Brito e Russo do Pandeiro têm a graça da interpretação própria ao canto lírico. Ah, vejam que eu disse que Linda Batista interpretava, não só cantava. Eis a aproximação do canto lírico com esse grande canto popular que, nos tempos que correm, nada mais os aproxima, a não ser neste algo parecido com notas musicais desperdiçadas por vozes as mais deseducadas possíveis, cheias de vícios odientos, como o cantar propistalmente fanho e a voz rouca, algo impensável no canto lírico. Afinal, o que diferencia os dois cantos? Já disse antes, mas repito aqui: a cientificidade aplicada à arte da música! E pronto!

 

 



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Exercícios em tempos de Quarentena - Allan André Sandes Borges


Adalberto Souza

14/06/2020 15h34

Hoje a colaboração para o blog é do Profissioal de Educação Física Allan A. Sandes Borges, um tema bem adequado para começar a semana:

Demasiado tem-se ouvido falar entre a relação dos exercícios e seus inúmeros benefícios. Benefícios estes em sua grande parte focados de forma errônea na busca pela tradução estética do corpo. Essa perspectiva está sendo mudada, mesmo que de uma forma tão drástica, que nessa pandemia nos obriga de uma forma geral também mudar a consciência do porque do exercicio durante esse período da nossa vida.

Nessa fase em que se encontra a humanidade, inseridos num processo de pandemia,  é dito que o melhor para o ser humano é o isolamento, isolamento esse que de uma certa forma já era realizado, porém agora a consciência é outra, a consciência agora é que é preciso isolar para nos manter sãos, vivos e bem.

Saúde, significa a união cabal da sua interação social, física e mental. Bagagens a parte trazida com essa pandemia inesperada, muitos efeitos já puderam ser sentidos, e não foram os virais. Um maior estresse por estar “encarcerado”, uma maior ansiedade por não saber o que pode acontecer, uma depressão pelas coisas não estarem acontecendo da maneira desejada, e associando tudo isso um estado de inércia que aumenta os fatores de risco pra inúmeros malefícios associados ao isolamento social.

Muito pode e deve ser feito para minimizar estes efeitos durante o período  que estamos todos a passar. Brincadeiras, jogos, e por que não exercícios? Exercícios simples sem toda aquela “parafernália” das máquinas das academias etc.

Como tudo na vida, a atividade física tem seu ritmo. Observe-se enquanto individuum, realize os movimentos no seu tempo, dentro da sua individualidade, perceba enquanto ser humano a evolução dos seus movimentos e use isso ao seu favor. Construa uma nova rotina, uma nova perspectiva ao seu redor do que você pode fazer por você e como pode influenciar outros a fazerem o mesmo e com isso construir uma saúde plena.

Eis o que pode ser feito: alongar; sentar e levantar; ir e voltar em linha reta  mudando as direções e incrementando com velocidade, percepção de espaço e direção, uma marcha estacionária (elevando os joelhos e os trazendo para perto do tronco), até mesmo um simples polichinelo dos tempos dos nossos pais.

A intenção aqui e agora é manter-se ativo, em movimento, gerando uma sensação de bem-estar, de leveza, onde as vantagens por mais que sejam testadas e aprovadas a nível muscular, cardiovascular, cardiorrespiratório, endócrino e neural, já são o suficiente para nos deixar prontos para um novo patamar de consciência do que os exercícios podem fazer por nós.

Apenas fazendo um adendo a tudo isso que está acontecendo, o maior benefício que todo esse processo ao qual a humanidade está passando, acredito que ao ritmo da pandemia muito mais pessoas vão ter uma nova visão do que exercício significa de fato na vida delas, trocando a prática com o objetivo puramente estético pela manutenção da sua própria vida, da sua saúde, e quem sabe enxergando a estética, o ideal David de Michelangelo e a perfeita Vênus de Botticelli, apenas como uma mera obra anatômica da criação do universo. A realidade é outra.



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A ópera e as montagens ”modernas” - Eduardo Xavier


Adalberto Souza

02/06/2020 20h46

A colaboração dessa semana fica por conta do ótimo texto do professor Eduardo Xavier:

 

Porque está em entre parênteses, não carrego “moderna” com um sentido pejorativo, mas aponto uma antinomia entre o que é a ópera e o que se pretende dela nas montagens nas últimas décadas, senão vejamos! A ópera é um teatro musicado, grosso modo de uma explicação rapidíssima, mas é a pura verdade. Tem quatrocentos e vinte anos de história se tomarmos como marco referencial a data de 1600 com a apresentação da “Euridice”, ópera com versos de Ottavio Rinuccini (1562-1621), musicada inicialmente por Peri (1561-1633) e depois por Giulio Caccini (1551-1618). Claro, outras “óperas” foram apresentadas antes, como “Rappresentazione di Anima e  Corpo”, de Emilio de Cavalieri (11530-1602) e uma certa “Dafne” (1594), dos mesmos Rinuccini e Peri. Nada de muito estrepitoso quanto a citada “Euridice”. Bem, não quero falar da história dessa encantadora e instigante forma de expressão musical que congrega poesia, música, dança, cenografia, figurino, iluminação, maquiagem e costura, pintura, engenharia e carpintaria, mas falar das montagens que, de certa forma, fogem àquilo proposto pelo argumento. Tornou-se quase uma moda, sob a desculpa de fugir do “mesmismo”, representar aquilo que dita o libreto, antes a história, sob uma “ótica” atualizada. Uma história de conquistas, mortes e seduções setecentista passou a ser ambientada no Harlem novaiorquino da segunda metade do século XX na ópera “Don Giovanni” (1787), de Mozart (1756-1791). E que tal a “Navio Fantasma” (1843), de Wagner (1813-1883), que pelo próprio título sugere mares e portos, passar a ser exibida no Muro de Berlim, quando ele ainda existia? Ou a história de camponeses apaixonados que vivem às turras, morando no campo, ser transferida à beira-mar, com banhistas de calção e biquini, na “L’Elisir d’Amore (1832), de Donizzetti (1797-1848)?  Sob o pretexto das atualizações, outro nome para ideologização da montagem, propõem-se as mais estapafúrdias encenações fugindo, o mais das vezes, àquilo que dita o argumento e a poesia (libreto) da “opera in musica”, um dos primeiros nomes dados à ópera. Os defesas para as montagens as mais distintas, daquelas de achar pelo em ovo, mas incomoda ver que a Violetta, personagem de “La Traviata” (1853), de Verdi (1813-1901), pode vir a se divertir (Ato I), afastar-se do seu amado Alfredo (Ato II) e morrer (Ato III) numa casa da luz vermelha, já que a mocinha da trama é uma das de vida nada fácil, que vive às mil maravilhas numa Paris feérica do século XIX! E quê linguagem anacrônica seria o libreto de Francesco Maria Piave para um puteiro dos anos 2000! E que tal Manrico, personagem da “Il Trovatore” (1853) do mesmo Verdi, como o nome da ópera sugere, O Trovador, vir a se transformar em um roqueiro e, portado a sua guitarra elétrica (mesmo que não a toque em cena) cantar na Cena III da Parte Prima, Il Duelo, numa tradução literal do italiano original, “deserto sobre a terra, com um perverso destino em guerra, é apenas esperança um coração”, algo que não condiz com o “descolamento” da linguagem do rock. Manrico fala a linguagem do século XIX, ó senhor cara pálida regisseur, o diretor de ópera! Mas seria interessante ver a Turadot (1926) de Puccini (1858-1924), obra dentro dos temas exóticos do compositor, desta vez focando a China, ambientada num laboratório nos finais de 2019 e começo de 2020? E tanto Turandot e seu pretendente Calaf, ambos cientistas,  dando a entender que dando que procuram a resposta para um enigma, não o amor,  mas como surgiu o vírus chinês! Ah, graça nenhuma! Os libretos, em sua extensa maioria, não combinam com as montagens “modernas”. Acredito que ou os diretores se aproveitam do fato de que nem todos entendem efetivamente as línguas nas quais as óperas são cantadas (mesmo com as traduções, que podem ser falhas) ou querem tirar sarro da cara da plateia: são provocadores contumazes, apenas! Ou nada disso, agem por pura ideologia e só!



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A porção diamante do vidro


Adalberto Souza

16/05/2020 01h24

 

No começo das férias era sempre assim. Guarda essa, tira aquela, esse short branco não, vai voltar emporcalhado. A mãe cuidava dos detalhes práticos, meias, calças, calções. Corria de um lado para outro, afogueada. O pai olhava e bocejava, visualizava a mulher correndo e os pequenos sonhando e correndo atrás da mãe, nervosos e guardando brinquedos nas malas, escondidos da mãe que como um general, recrutava todo espaço para mais uma bermuda ou um casaquinho para o frio tropical.

O pai não acreditava que mais um ano já tinha derrapado na curva do tempo. Virava para o lado e dormia, sonhava com as próximas duas semanas de sossego, sem a correria e a gritarias dos traquinas. “Dorme menino que amanhã chega logo”, tentava a mãe acalentar o mais velho, olhos brilhando, vidrados nas mil aventuras que iria viver. Espírito irrequieto sonhava ser um caçador de tesouros em busca de ouro, prata, platina, ágata ou rubi.

Os menores, cansados da correria diária dormiam pesado, sonhando com a viagem. Cedinho, cedinho, toda a meninada da rua já de pé, olhos invejosos e saudosos, chegavam juntos da velha Rural Willys para esperar a partida dos amigos. Invejosos das aventuras que não iriam viver e saudosos dos queridos amigos que iam; restava apenas à espera das histórias que iriam ouvir de bocas felizes no final das férias.

E lá se iam os três, aboletados no banco de trás, olhando o cabelo ondulado do pai e o coque apertado da mãe, ainda cheia de recomendações: obedeça a tia, ajude a avó, não judei dos primos, fique longe do tio. E falava... e falava... e recomendava... e chorava... e saudades já sentia dos pequenos. O pai olhava e resmungava: “Manteiga derretida!”, sem mostrar que o coração apertadinho também sentiria falta dos rebentos. E chacoalhava a velha Rural Willys estrada afora.

O grande paredão de barro vermelho no quintal da casa da tia era um atrativo que mais parecia bala puxa-puxa quentinha saindo do fogo e mergulhada na água fria. Imponente, dominava todo o quintal, subia até perder-se de vista, cheio de cores misturadas, como um arco-íris bem ali pertinho, pronto para ser tocado. Era uma festa. As férias tão arduamente desejadas chegaram e a meninada a sonhar com o barro entre os dedos. A tia esperando no portão de madeira no primeiro dia da semana quando o irmão levava os três, dois meninos e a mais nova, que sendo a primeira vez que a mãe deixava ir com os irmãos, ainda não sabia das aventuras que estava por viver.

As primas, duas, e o primo mais novo, louco para aprontar das dele, fazendo maldades e judiando dos menores. A velha avó, doceira de mão cheia, fazia quitutes e guloseimas para os que chegavam, saudosa dos netos e do filho.

Amigos dos primos apareciam aos montes, era só a tia sair que as recomendações saíam com ela. A velha avó que adorava ver os pequenos brincarem, abria o portão que dava para o quintal e soltava o rebanho sedento por mãos barrentas. E era uma mesa de barro que aparecia, outro fazia um prato, um copo e a mesa estava posta. Sentavam todos ao redor e fingiam comer, sonhando com bolos e biscoitos e chocolate quentinho. As meninas queriam que os meninos ficassem nesse comes e bebes, mas os pirralhos, loucos por aventuras, paciência não tinham e logo, logo se enfastiavam desse maçante chá. Restava às moças continuarem suas aventuras gastronômicas.

O mais velho, afoito, adorava escalar o paredão; chegar ao topo não conseguia nunca, pertinho, pertinho a avó chamava, “Entra, entra, meninada, a tia já já chega”. A debandada era geral: entra menino, corre menina, sai vizinho, chega vizinha, toma banho, esconde a roupa amarelada de barro, a tia não pode ver.

Todo dia a mesma coisa. A tia saía, a meninada corria ao paredão. Dias depois chegou a prima mais velha com uma novidade: “Achei um diamante!”. Olhos correram, invejas galoparam, mãos tremeram. Cada um pensava que também queria um diamante. O mais velho sonhava com viagens e descobertas de tesouros, o outro pensava em quantos Falcons poderia comprar. A prima gorducha pensava em comprar uma padaria que faria sonhos de todos os tipos e todos os dias só para ela, e começava a trocar os recheios e experimentar sabores, hummm..., chocolate com morango, banana com mel, e misturava feijão com arroz num sabor que achava melhor deixar para lá. A mais velha pensava num namorado e a mais novinha pensava: “O que é um diamante?”. Coitadinha, só pensava, ousar perguntar não ousava, tinha medo do cascudo do primo mais novo.

E a danada da prima não mostrava o bendito diamante. E pediam e ameaçavam e a danada nem titubeava. “Diamante meu não mostro assim, não”. E propôs a brincadeira: já havia escondido o tesouro, “Agora é só procurar, cambada, quem achar hoje esconde amanhã, todos procuram outra vez e assim até o final das férias, quem achar no último dia é o dono da riqueza”.

Pronto, estava armada a maior aventura; era uma preparação aqui outra ali, era uma a bajular a prima oferecendo biscoito extra no lanche, até o vizinho mais assanhado prometendo beijo, e a moleca irredutível: “Vamos procurar”. E a tia não saía, olhava no espelho, voltava para o banheiro, arrumava o travesseiro no quarto e ir pra rua, nada. Parecia pressentir a excitação dos meninos. Portão da frente fechado, debandada geral. Tá quente, tá frio e assim passavam o dia, tia chegando, para dentro meninada e estranhava a tia aquelas carinhas tristes, nada tinham encontrado.

Outro dia, outra procura e a danada da prima não falava. A gorducha, encrenqueira e espevitada, mastigava seu pão com manteiga a dizer: “É mentira dessa aí”. O mais velho não se cansava, era uma aventura subir no paredão, revirar os torrões de barro. Aos poucos a descoberta: na parte mais alta o barro era seco e colorido, não só o vermelho e amarelo do barro molhado, mas também branco e vermelho e um pouco laranja.

Trazia pequenas porções com as quais as meninas, já cansadas dessa história de tesouro voltavam a brincar de chá; agora o chá poderia ser branco, grená e rosa que aparecia quando misturavam as cores. Os meninos aventureiros subiam e desciam, reviravam e nada.

Dias passando, chega a tia com a novidade: “Molecada dia do sorvete”. E lá ia a tia, cansada do dia inteiro de trabalho, arrastando aquela fileira de endiabrados, cada um querendo um sabor diferente, e o mais velho querendo seu cobiçado diamante.

Domingo: corre-corre, cedinho, cedinho a avó levanta e prepara seus quitutes para o dia mais esperado. A praia. Aos poucos a casa começa a despertar. Acordando o primeiro peralta e todos os outros como que combinados já estavam também acordados. Só faltava levantar a tia. Corre pra lá, corre pra cá e a tia estava pronta, e lá se vai o cortejo carregado de delícias e energia. E pula e salta e salta e mergulha e pula. Volta agora, não!. “Vamos, tá na hora molecada” – chamava o tio, e corriam, todos mais por medo do tio policial do que por vontade. Já na cama ainda com o balanço do mar no corpo e o cheiro de sal na pele, cansados, cada um pensava no diamante, uns achando mentira da prima e outros sonhando com riquezas.

Segunda, última semana das férias. Tia trabalhando, busca começando.

Terça. Quarta. Quinta, e a prima mais velha começa com a gritaria, acode a avó: “O que foi, menina?”. Uma caranguejeira, um monstro, parecia um fusca de tão grande. Pronto, a confusão estava instalada, chegavam os valentões e procura que procura, as meninas corriam desembaladas, trombavam umas nas outras e nada da monstrenga aparecer, e caça e procura e nada da monstrenga aparecer, e caça e procura, e o mais novo, gaiato como ele só, arruma uma folha seca e joga no meio do chá das meninas que, já cansadas da correria, tinham voltado aos afazeres. O mundo caiu, uma jurou que a monstrenga chegou voando, outra que viu os olhos piscando. Mas o que se viu foi chá de barro, boneca suja e canelas machucadas. A pobre da aranha até hoje deve contar aos seus netos o dia em que encontrou as loucas gritadeiras.

O mais velho não se dava por vencido. A farra da aranha acontecendo e ele procurando. Procurando e subindo e escalando o paredão. A roupa já não tinha cor, era de barro, quando finalzinho da tarde acabava a brincadeira, todos estavam enlameados, só os olhos pareciam limpos, até as almas estavam enlameadas. Felizes de barro.

Sexta. Apenas mais dois dias para o barulho da velha Rural do pai rasgar o domingo modorrento da cidadezinha. O mais velho arteiro e fagueiro, iniciava suas buscas numa parte onde a água das brincadeiras das meninas molhava o barro e o deixava escorregadio, e passa para lá e passa para cá, e pra lá e pra cá e se esborracha no chão.

Os pequenos rolavam de rir, as meninas tomavam chá e riam; até a avó que veio ver o motivo da algazarra ria também. O mais velho mexia para lá e para cá tentando levantar, e quanto mais mexia mais sujo ficava e, de repente começa a rir, e gargalha e olha para a prima e descobre que o tesouro estava bem ali, igual à carta escondida, estava bem à vista o tempo inteiro, dentro de uma pequenina casinha feita nas férias do outro ano. E ria e olhava para a prima e ninguém entendeu nada. Ele destrói a casinha e levanta o diamante, e todos param de rir e olham cobiçosos e admirados para o grande caçador de tesouros.

Ele conseguiu! Corre para a lavanderia e começa a lavar seu tesouro, e os lampejos do sol no vidro lapidado do diamante do colar falso da tia, comprado numa feira hippie, aparece radioso em sua mão. Ele era o poderoso, dono do tesouro, rei das férias e olhava seu diamante; ninguém sabia a origem dele, ninguém, só a prima sabia da feira e coisa nenhuma disse.

Hora de dormir, ele segurava seu tesouro até a tia aparecer e apagar a luz, e então colocava seu tesouro debaixo do travesseiro para sonhar com viagens e aventuras, e o resto das férias foi um sonho.

O mais velho com seu tesouro. A gorducha sonhando com as guloseimas que a tia traria. A prima sonhando como iria devolver o diamante da mãe. E ou outros cansados de tantas brincadeiras, só pensavam em voltar e contar aos amigos da rua suas aventuras.

Domingo cedinho, o som da Rural Willys já se ouvia. A mãe já chorava de saudade dos seus pequenos, o pai olhava resmungando e com olhos marejados murmurava: “Manteiga derretida!”. E lá na casa a avó coava o café novinho, o tio chegava com o pão e os pequenos começavam a algazarra e a tia ralhava aflitíssima, pensando em tantas roupas para lavar. Pensava na cunhada lá longe, não podia devolver os pequerruchos com as malas repletas de roupas amarelas. Repletas de roupas amarelas, crianças repletas de doces, almas amarelas, saudosas do amarelo avermelhado do doce paredão de barro.

E o mais velho com seu tesouro...



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Jardins Falam


Adalberto Souza

11/05/2020 16h48

Hoje a colaboração é da arquiteta e paisagista Patrícia Peagle

 

"Tem uma pitombeira na janela do meu quarto. Ela guarda o meu sono e todas as manhãs ela está lá, saudando um novo dia que começa. Um dia desses, um sabiá pousou em seus galhos, e o seu canto me lembrou que jardins falam. Percebi essa realidade lendo um texto de Rubem Alves em que ele conta que Guimarães Rosa em uma de suas obras disse: “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu – constantes trazem recados”.

A partir daí, viajei; comecei a pensar por quantos jardins aquele pássaro tinha passado, será que tinham muitos por perto? Quantos jardins o tinham alimentado e oferecido abrigo? Será que tinham árvores?  Quem e quantos seres vivos circulavam por eles? Que recados trazia o sabiá até a minha pitombeira? Ou, até mesmo, que recados ele levaria a partir do meu jardim?

Imergi tão profundamente em meus devaneios que quando me dei conta o sabiá bateu asas e mergulhou em um céu encoberto de nuvens, levando recados que até mesmo eu desconhecia. Então, pensei: estou aqui, eu e meu jardim."

 

 

 



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5 Árias para gostar de Ópera


Adalberto Souza

05/05/2020 14h56

 

Algumas pessoas ainda consideram a ópera um gênero musical chato, onde cantores aos berros declamam dramas intermináveis. Músicas para estourar os ouvidos. Essa semana trago 5 motivos que comprovam que essas pessoas estão absolutamente erradas. Provo por ária + ária que existe todo um mundo de paixões, intrigas, amores impossíveis, delicadeza e força impregnadas tanto nas interpretações quanto na música em si. Entendendo por ária a parte da música de uma ópera composta para ser cantada ou recitada por somente uma pessoa.

A ópera desperta acaloradas paixões e sabendo disso saliento que a escolha é puramente minha e a ordem escolhida não significa preferência por essa ou aquela ária. Todas podem ser facilmente encontradas em qualquer aplicativo de reprodução de vídeos ou músicas. Confiram e bom divertimento!

1 – “Casta Diva”

NORMA – Vicenzo Bellini (1801 – 1835) – Milão, 1831

            Norma é uma tragédia em 3 atos. Apresenta uma sacerdotisa druida, na época da ocupação da Gália pelos romanos. Secretamente tem um romance com um ocupante estrangeiro, com isso coloca em risco todo seu povo. A ária é uma oração pagã que Norma dirige à lua, na qual pede que essa acalme os espíritos revoltosos e confessa seu amor e sua vontade de proteger seu amado. Dramática, apaixonada e de uma força lírica impressionante, o papel de Norma é avaliado como um dos mais difíceis do repertório de soprano. Sugiro a audição dessa ária com Maria Callas, uma interpretação primorosa.

 

2 – “Vissi d’arte”

TOSCA – Giacomo Puccini (1858 – 1924) – Roma, 1900

Tosca retrata uma história de amor, vingança, crueldade e morte, a história se passa em Roma em 1800, seu pano de fundo são as guerras napoleónicas e o ambiente revolucionário então vivido. Floria Tosca é uma celebre cantora de ópera e sofre terríveis agruras nas mãos de seu algoz Scarpia, numa cena tocante, jogada ao chão, Tosca canta emocionada que viveu da arte e do amor e de todo sacrifício que fez, até adornar o manto da Madona, e sua descrença em viver tal situação, uma emocionante declaração de amor e resignação, depois disso sua situação cresce num vértice de mentiras e enganações que a levam ao desespero e depois de ter esfaqueado o vilão Scarpia e observado seu amante Cavaradossi morrer, salta para a sua própria morte. Deixo como sugestão a Tosca na interpretação de Raina Kabaivanska.

3 – “Sempre Libera”

LA TRAVIATA – Giuseppe Verdi (1813 – 1901) – Veneza, 1853

            La Traviava  é um libelo de história de amor e tragédia, Talvez seja a obra mais executada de Verdi. É a história de uma heroína tuberculosa e decadente, baseada na peça teatral “A Dama das Camélias”, do escritor Alexandre Dumas Filho. Retrata a vida da cortesã Marie Duplessis, na ópera chamada de Violetta Valery, O amor de Violetta e Alfredo Germont é cheia de altos e baixos e com um final trágico. Repleto de árias famosas, entre elas o dueto “Parigi, o cara”, que ocorre perto do desfecho e a bela “Sempre Libera”, que é uma declaração de amor e a boa vida. Talvez o último momento em que a heroína experimenta sua força de viver e sua liberdade para isso, depois o amor malfadado e a sua doença debilitante fazem com que sua vida se torne bem complicada. Para ouvir com a soprano Edita Gruberova.

 

4 – "Air des clochettes"

LAKMÉ – Leo Delibes (1836 - 1891) – Paris, 1883

Lakmé é o nome da protagonista dessa ópera que se passa na Índia, durante o período do domínio Britânico. Conta a história de um amor impossível entre um oficial britânico e uma jovem Hindu que acaba de forma trágica. Juntamente com o Duo des fleurs são as peças mais conhecidas dessa obra. A ária acontece no segundo ato, cheia de virtuosismos vocais, exige grande carga emocional da interprete, que além de estar preocupada com seu pai, que desaprova o romance, ainda mais ressabiada com o destino que é reservado ao seu amado. Sugiro a bela interpretação de Natalie Dessay.

 

5 – “Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen”

A FLAUTA MÁGICA – Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791) - Viena, 1791.

“A vingança do inferno ferve no meu coração” (traduzido do alemão), é mais comumente chamada de "Der Hölle Rache", ou simplesmente como Ária da Rainha da Noite. É uma ária integrante da ópera A Flauta Mágica, e uma das mais famosas árias de ópera. Representa um acesso de fúria vingativa, em que a Rainha da Noite coloca um punhal na mão da sua filha, Pamina, e a exorta a assassinar Sarastro, seu arqui-inimigo. Famosa por sua dificuldade e pela exigência da destreza vocal requer um vigor acessível somente a vozes extremamente qualificadas, além da força dramática do contexto, ou seja, um assassinato por vingança. Diana Damrau é uma excelente interprete da Rainha da Noite.

 



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A Cômoda Verde - Socorrinho Lamenha


Adalberto Souza

27/04/2020 01h45

     Essa semana a prestimosidade para o blog é da Professora Socorrinho Lamenha*. Um olhar sobre a tela A Cômoda Verde do Pintor Eduardo Xavier

 

       Não. Não queria ver. Mesmo que a verdade estivesse ali, às suas costas. Mesmo que o Éden já não lhe pertencesse e o Paraíso agora parecesse estar cada vez mais distante.

      Agora sabia quem era, mesmo que não quisesse olhar. O espelho só refletiria uma verdade duplicada, aumentada. Doída. Não!

      Havia despido-se da pureza. Ou assim imaginava, observado por Aquele que parecia repetir cada vez que olhava a imagem sobre a cômoda verde :"Veja, sofri tudo isto por ti!". Ah, e ainda havia os outros que O ladeavam. O Exército da Danação Eterna.

      Abraçava-se a seu corpo buscando a santa ignorância uterina, mas a impossibilidade do retorno fazia com que suas mãos pendessem inertes, ineptas.

       Culpa,culpa, mea culpa....Máxima culpa.

       E onde poderia escondê-la, se a gaveta fora finalmente aberta?

        Eduardo Xavier - A Cômoda Verde óleo/tela Maio 2014

 

* é Arquiteta e Professora de História da Arte.



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Poesia em tempos de quarentena


Adalberto Souza

22/04/2020 12h52

 

De passagem pela cidade que dorme.

Sonhos, dores, postes.

Luzes que brilham para ninguém.

De passagem pela cidade que não é minha.

Atravessando pontes que ligam lugares que não conheço.

Ruas que não me sabem.

Aquela casa verde?

Quem mora?

Quem deseja?

Alguém chora?

Somente essa vez, nessa cidade que dorme.

 

Partes escuras pouco iluminadas, amareladas e esquecidas, quem mora?

Quem espera o outro chegar?

Do bar?

Do trabalho?

De outro amor?

 

Somente essa vez e, nunca mais,

nessa praça, esse banco,

já viu amores?

Começos?

Despedidas?

Correrias?

Floradas em temporadas alternadas?

Quem plantou?

Quem cuidou?

Foram arrancadas?

Na mesa de quem amarelou?

As folhas secas?

Quem levou?

Que vida em outras vidas essa árvore guardou?

 

Nessa cidade de histórias adormecidas, de passagem somente, hoje é nunca mais.

Cidade adormecida embalada por histórias esquecidas e curtas perdidas.

 

De passagem pela cidade que dorme. De passagem.

Somente.

 

Adalberto Souza



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Um Gato que se chamava Rex


Adalberto Souza

08/01/2019 15h29

            Em tempos de acaloradas discussões sobre rosas e azuis, ideologia de gênero, aceitação, inadequação corporal, nada mais acertado do que o novo livro do escritor Lucas Barroso, Um Gato que se chamava Rex (Moinhos, 2017).

            Primeira incursão do autor no universo infantil, vindo dos excelentes Virose, (2013), O ano dos mortos (2015) e Um Silêncio avassalador (2016), Barroso mostra também sua verve literária em tratar de uma boa história para os pequenos e os não tão pequenos assim, "somos feitos de histórias. Somos feitos para contar histórias. Elas, simplesmente, acontecem e deixam marcas profundas na gente".

            O livro é uma fabula sobre ser e aceitar o que se é. A personagem principal, o gato que não se aceitava como tal e vivia como um cão. Já no título isso causa estranheza sendo Rex, um nome típico (quase como uma regra) de cachorro e não de gato. O livro trata da trajetória de vida dele desde filhotinho, os primeiros passeios, contatos com os “amigos” no parque e o medo de ser diferente entre iguais. "Pode alguém sentir que nasceu dentro de um corpo errado? Pode alguém ser diferente do que parece ser?"

            De uma forma lúdica, Barroso vai traçando toda a vida do felino. E isso em tempos de intolerância é um libelo de sensibilidade. Tudo no livro é delicado e real. Mostra que por trás da “dita inadequação” existe alguém que borbulha de dúvidas e preocupações. Não apenas a definição de ser isso... ou aquilo. “A vida tem uma porção de coisas que a gente não entende bem. Muitos mistérios, segredos e surpresas ao longo do caminho. Algumas vezes, fica difícil explicar ou compreender o que acontece."

            O Gato Rex sente na pele a angústia, o medo, o preconceito, a forma de ser olhado. Também sente a aceitação, o amor, o acolhimento. Assumir a vida do outro, ser outro num corpo que não é o seu. Tudo isso está presente no livro. De forma bastante clara e é impossível não se deixar levar por essas questões vista pelos olhos do carismático gatinho. E ainda embalado pelas belas ilustrações de Humberto Nunes. As imagens servem como tradução sensorial do texto bem como potencializa a singeleza da história.

            A grande moral da bela fabula escrita por Lucas Barroso é o reconhecimento e o respeito às diferenças, as idiossincrasias de cada um. Ver o outro sem preconceito, e mais ainda mostrar para a criançada que somos todos iguais. Grande livro. Grande história.

Onde achar:

https://editoramoinhos.com.br/loja/um-gato-que-se-chamava-rex/

 



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O Diário de Frida Kahlo – um autorretrato íntimo


Adalberto Souza

25/06/2018 09h21

A obra de Frida Kahlo é marcada pela sua experiência com a dor, assim como sua vida também. A relação conturbada com seu marido, levou a artista a inúmeros percalços em sua carreira. Dessa relação e de sua vivência com a limitação física, nasce um relato pictórico e literário que nos dá a dimensão dessa intensidade em que vivia mergulhada. O Diário de Frida Kahlo – um autorretrato íntimo (José Olympio Editora, 1995) é composto por 170 páginas, escrito em sua maioria com tintas berrantes, repleto de desenhos perturbadores e várias aquarelas, muitos esboços e inúmeros símbolos pré-colombianos, muitas anotações e poemas. Contam seus últimos anos da vida, misturando memórias recentes com fatos e acontecimentos de seu passado e de sua experiência matrimonial.

O Diário compreende o período entre 1944 e 1954. Repleto de uma lírica advinda de observar e transcrever o que sentia e o que se passava ao seu redor, principalmente em relação aos seus temas mais caros, seu marido, sua cultura e sua devoção a ambos.

 

Entender os olhares

de nossos fechados.

= Estás presente, intangível,

e és todo o universo que formo

no espaço de meu quarto.

Tua ausência brota

tremendo no ruído do relógio,

no pulsar da luz;

respiras pelo espelho. De ti

até minhas mãos, percorro

todo o teu corpo, e estou contigo

um minuto e estou comigo

um momento. E meu sangue

é o milagre que flui

nas veias do ar do meu coração

para o teu. (p.22)

 

O mundo de Frida Kahlo, tal como expresso em seus poemas, é repleto de angústias, saudades, tempo, remorso e raiva, por ter sido traída por seu grande amor, e mais ainda por ter sido traída por seu próprio corpo. Sua indignação pode ser notada nos vários desenhos espalhados pelas páginas do livro.

Esse comportamento também é amplamente usado no Diário, um fluxo de consciência, de ideias, desenhos e rabiscos, como se fossem jogados às pressas em algumas lâminas ou mais pensados e trabalhados em outras, mas todas seguindo um fluxo de consciência bastante veloz e algumas vezes sem muita coerência. Como se tivesse pressa de registrar o que via ou pensava, para não perder o fluxo do que lhe era assomava o pensamento. Quase como um resumo das mesmas características do arsenal imagético que povoa suas pinturas.

Muitos desses poemas trazem Diego como sua razão de viver e em muitos casos era ele quem lhe servia de referência, tanto na escrita quanto na sua pintura. Sua arte servia para expressar sua alma.

 

Diego começo

Diego construtor

Diego meu menino

Diego meu namorado

Diego meu pintor

Diego meu amante

Diego “meu esposo”

Diego meu amigo

Diego minha mãe

Diego meu pai

Diego meu filho

Diego = eu =

Diego Universo

                  Diversidade na unidade (p. 60).

 

Frida também era dona de uma personalidade atrativa. Sua forma de ver o mundo e sendo dona de uma inteligência que permitia interagir de forma rápida e dinâmica com o circundante, trouxe para ela muitos amores, e fossem homens ou mulheres, ela também teve seus relacionamentos. Mas Rivera inegavelmente foi seu amor mais cruel e verdadeiro, somente para dar uma ideia, num dos momentos em que o marido pintava o painel Insurreição no mural Balada da Revolução Proletária, que fica no prédio do Ministério de Educação, olhando para sua esposa, ele teria dito: “Você tem cara de cachorro”, e Frida, sem se abalar, teria respondido: “E você tem cara de sapo”.

 

Compreendes tudo. A união definitiva.

Sofres, gozas amas te alegra beijas

ris. Nascemos para fazer as mesmas

coisas. Para descobrir

e amar o descoberto, oculto.

Com o medo de sempre perder.

És belo. Dou-te a tua beleza.

És suave em tua enorme tristeza.

Simples amargura. Armas

contra tudo que te acorrenta.

Te amas. Me amas como centro.

Eu como tu mesmo. Conseguirei

ter apenas a maravilhosa lembrança

de que passaste pela minha vida

semeando joias que só recolherei

quando tiveres ido. Não existe distância.

Existe apenas tempo. Ouve-me.

Acaricia-me com aquilo que procuraste

não encontrastes. Vou para ti

e para mim. Como toda canção já vista (p. 52)

 

Em uma das suas últimas frases escritas no Diário, ela expressa toda sua angústia e sua mais absoluta falta de esperança com tudo e com todos, seu enorme desejo de deixar a vida e com isso acabar, sem uma única chance de voltar seja lá como for. Em seus momentos finais, sua vontade expressada com a seguinte frase: ''Espero a partida com alegria... e espero nunca mais voltar...”.

Enfim, sua memória, seu trabalho, sobreviveu a sua partida e se depender de toda a influência, encanto e mistério que ainda hoje rodeiam sua vida, ela viverá atemporalmente. Seja através de seus autorretratos vistos em museus espalhados por todo o mundo, seja através da art pop que cultua sua imagem como ícone, o certo é pensar que Frida Kahlo se tornou o centro de uma estética lírica e onírica, criada e vivida por ela mesma.

 



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Poematório - Eduardo Ruiz


Adalberto Souza

12/06/2018 10h43

A poesia de Eduardo Ruiz é um fluxo constante em direção ao sentimento. O autor é dramaturgo, artista plástico, ator e poeta. Poematório (Colmeia Livros, 2018) é seu segundo livro.

Nesse livro, que é o segundo do autor, cada página é uma antecipação para um próximo momento de sutileza e lirismo. Revelando aquele sentimento que está ali, latente e aparentemente escondido. Pronto para romper a frágil barreira imposta para conter aquela magia guardada, aquela saudade pronta para rasgar a segurança das coisas que são abandonadas, mas não nos abandonam. O livro traça uma cartografia do sentir, contorções e constatações de que muito ainda precisa ser expurgado para recomeçar.

            Numa verdadeira viagem pela alma humana, e em seus recônditos mais prementes, Ruiz vai levando o leitor por trilhas e recantos que de onde o encontro consigo mesmo é somente a única condição para sair ileso dessa angustiante/reveladora situação em que o sentimento urgente implora por respostas.

 

“Então vai embora, amor

É melhor do que eu viver preso na triste percepção de que

Sua alma já foi

E esqueceu seu corpo aqui.” (p.21)

 

            Os poemas não obedecem uma ordem, nem cronologia, e muitas vezes na leitura se revelam uma conversa com um amigo, onde quase soluços, entremeados de pausas para que o outro compreenda o que se desvenda na indistinta face aparente do sentir.

São narrativas passionais, daquelas que impregnadas de nós mesmos, são proferidas entre segredos quase de confessionário. E que incomodam. E em algum momento são confessados ao amigo, ao vizinho, ao motorista do Uber. Sim porque o que mais importa é falar sobre partidas, voltas, o que deixa de ter sentido em algum momento.

 

“Eu sei, eu sei, eu sei...

Mas eu adoraria não saber

Que você não está  mais aqui

Pra dividir essas duvidas comigo.” (p.50)

 

Cada verso vem mostrar um pouco do que transfigura o sentimento, aqueles mesmos que tanto podem ser tormentosos quanto plácidos e enganosos, escondendo na superfície aparentemente calma, ilustrativos de uma ebulição interior.

Poematório trata o tempo como se ele fosse flexível e dobrável ao sabor das lembranças. Essas, são impetuosas e com trânsito livre entre as ininteligíveis dobras das memorias.

 

“Eu vi, na marca de sua boca, na borda

Da xicara de chá do café de hoje de manhã que

Você vai embora...

Talvez você nem saiba ainda quando e nem como vai

Mas quem fica pressente o vazio.” (p.80)

 

                Da viagem lírica proposta por Eduardo Ruiz não dá para sair incólume. Seus poemas ecoam por muito tempo nas lembranças reviradas que com certeza ele irá despertar. Um livro inesquecível.

 

 



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Quando os gatos lunares encontrarem Rodolfo Valentino na cidade dos bonecos solitários


Adalberto Souza

25/04/2018 11h26

Resenha feita pelo site Entre Resenhas capitaneado pela Regina Souza

Título: Quando os gatos lunares encontrarem Rodolfo Valentino na cidade dos bonecos solitários.
Autor: Adalberto Souza
Páginas: 168
Ano de Edição: 2016
Projeto Gráfico: Roger Ferraz
Diagramação: Roger Ferraz
Revisão: Giuliano Porto

O que chamou a minha atenção para esse livro foi o título extenso e inusitado que aguçou minha curiosidade ao extremo, e assim que estava com ele em mãos, nas primeiras páginas fiquei surpresa, se não, atordoada com a avalanche de sentimentos inquietantes que encontrei em cada verso que Adalberto sem um pingo de pena dos corações dos leitores expôs nessa obra surpreendente.
 
De trechos breves mas, com uma densa carga emocional o poeta vai tecendo uma narrativa lírica que nos toma de assalto, nos apunhala no peito, nos deixa com o coração em frangalhos e que nos faz buscar lá dentro da alma, em um cantinho bem escondido lembranças e saudades.
 
A cada breve verso me perguntava se seria a alma do poeta sendo exposta ou, de outrem, que talvez em breves observações saltavam do seu coração e da sua mente para sua escrita 
 
A escrita de Adalberto é fluída, limpa, sem floreios, de fácil entendimento. Cristalina, seria o termo mais apropriado.
 
Me peguei de verso em verso parando a leitura, fechando o livro para "degustar" cada palavra. Um misto de saudade, dor, esperança, retorno ou não, perda e solidão. Me encantei por este livro, pela escrita do autor que não conhecia e que mesmo mostrando o lado mais feio do amor, cativa e envolve. Escrita única e pungente.
 
Dolorosamente lindo!!!
 
Recomendo aos amantes da boa poesia mas, deixo aqui um aviso: preparem os corações...
 
"Você não ficou ao meu lado naquele dia em que
perdi-me de mim mesmo,
você aproveitou e perdeu-se de mim também." página 111
 
"Não conseguia lembrar onde tinha deixado sua vida.
Procurava pelos cantos, pelos discos, pelos filmes, pelos livros.
Até se esquecer nas leituras para embalar tardes de domingo." página 117
 
 
O Poeta:
Adalberto Souza é psicólogo, licenciado em Letras e especialista em Literatura.
 
Autor dos livros:
Das coisas que esquecemos pelo caminho [Prêmio Lego/Ufal /2011] 
Fantasmas não andam de Montanha-Russa [Buqui 2014] e
Toda aquela inevitável pressa de te dizer nada [Buqui /2015]
 
https://entreresenhasre.blogspot.com.br/2018/04/quando-os-gatos-lunares-encontrarem.html
 
 


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Os deuses estão embriagados de uísque falsificado - Jean Albuquerque


Adalberto Souza

21/09/2017 10h35

Poesia é ressignificar. Poesia é “turbilhonar-se” num vórtice de sentimentos dicotômicos. Ler Jean Albuquerque é uma passagem só de ida para o meio do furacão. Sim, porque ele mostra o caminho, a volta, ou como voltar, fica por conta de quem se aventurar por essas páginas.

O sentimento reinante em “Os deuses estão embriagados de uísque falsificado” é a inquietação, aquela mesma que faz o cidadão procurar aquela garrafa de “slova” escondida na geladeira as duas da manhã para tirar do peito aquela sensação de pertencer a nada, de querer “ouvir sozinho um disco dos Smiths”, como se fosse possível estar sozinho em meio a tantos fantasmas que habitam um corpo que se doa por uma 51 ao primeiro que passar.

Jean sabe como transubstanciar o indizível, nada fica no meio termo, nada fica encoberto, aqueles sentimentos não podem mais manter-se escondidos para apenas acalantar madrugadas imersas em “replays de solidão”.

Ter esse livro entre as mãos, escrutinando os olhos como um “obscuro desejo da alma pesada de tédio”, é deixar-se levar por um caminho diante de catacumbas-sentimentos prontas para serem abertas no mais alto e bom som, saindo das sombras para “declamar poemas de amor”. Se os deuses bebem uísque falsificado ou não, a ressaca é um limiar pronto para ser cruzado. Atreva-se.

 



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A asa oculta da borboleta - Adriane Lima


Adalberto Souza

17/09/2017 20h58

 

Adriane Lima é uma poeta que se revela em cada verso do seu belo livro: A Asa Oculta da Borboleta (Ibrasa, 2015) logo no texto de introdução podemos ler que a escritora “tem o olhar poético, o amor à poesia, a sensibilidade órfã dos que amam a palavra, é poeta e musa, é vanguarda e respaldo”. Nada mais certeiro para descrever a escrita de Adriane. É só transitar entre seus escritos para isso ficar muito evidente.

Seu livro é quase um estudo cartográfico dos sentimentos ocultos na alma. Quase uma trilha onde a autora vai deixando pistas para serem encontradas e desvendar sutilmente o que nem mesmo conseguimos perceber. Sua escrita é clara e sua poética muitas vezes se confunde com a rotina diária de pensamentos em fluxos contínuos. Daqueles que ficam martelando e martelando até conseguir atenção máxima.

Adriane escreve com uma sensibilidade à flor da pele. No livro as imagens criadas são tão plausíveis que a identificação é imediata. “Às vezes a vida é tinta que escorre/ no chão já lavado/ é gente que morre em pleno feriado”. Uma clara leitura daqueles feriados sufocantes em casa, um domingo tedioso e um feriado da nossa própria vontade de ultrapassar a barreira do indizível.

Quase como um despertar das memórias dos sentidos, um aguçar da pele, dos olhos para as coisas deixadas inacabadas. Prontas para aflitivamente reacenderem. Quase uma constatação, uma aflição e uma certeza de que “Hoje ainda me pego/ não sabendo fritas os ovos / mas o estar só, já encaro de frente”.

O livro transita em vários pontos, tal como uma viagem da qual não tem uma volta precisa, pode-se passear pelos desníveis da alma como um voo errante de borboleta feita de sussurros, entre coisas que poderiam ter sido, ou deveriam ter sido, reminiscências de uma vida com “o humor encarnado/ em situações simplistas? Além de gestos infantis/ que um dia me levariam/ ao divã de um analista”.  

Um livro para se ter por perto, sempre. Um belo registro de uma poeta com sensibilidade e lirismo, tal como uma metamorfose de uma bela borboleta. 



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Quando os gatos lunares encontraram Rodolfo Valentino na cidade dos bonecos solitários - Uma resenha por Vitor Leal


Adalberto Souza

13/08/2017 15h04

Hoje publico uma resenha feita pelo Vitor Leal do blog Próximo Parágrafo, sobre meu livro. 

"Leia este livro, esta resenha e esta alma ao som de Beethoven, em especial, sinfonia de Nº05. 

Já dizia Willian Shakespeare "Os homens de poucas palavras são os melhores". Adalberto Souza dotado de um dom irrevogável para com a escrita, nos apresenta uma sensibilidade sem precedentes quando narra acerca da vida, das dores, do inebriar causado pelas noites mau dormidas, dos sentimentos irrecíprocos, do efeito causado pela causa do abandono, do descaso, da casualidade que trás a tona o desejo de afogar-se em mágoa para sentir-se completo novamente por algo que um dia foi inteiro, na esperança deste âmago que rege a nossa vida trazer-nos uma revelação sobre quem éramos antes de nos tornamos o que somos agora por motivos explicitados na aparente razão existente dentro do abandono.

Sobre a casualidade do que torna-se a nossa vida quando não nos encontramos mais em nós mesmos, necessitando reviver e recordar lembranças de quem um dia esteve ao nosso lado nos apoiando nas decisões e nas vontades, alimentando o sonho de que talvez tudo possa tornar-se revogável, e finalmente, fluir com a intensidade que outrora fora. Inebriar-se em meio as noites caladas, de silêncio, das vontades mau ditas, mau elaboradas e mau descritas dentro de um círculo limitado de silêncio, onde a alma do abandono dá espaço ao encontro entre o hoje, o ontem e possivelmente o amanhã, claro, causado pelo efeito das lembranças almejadas por intermédio de um copo de uma bebida qualquer.

"Você não ficou ao meu lado naquele dia em que me perdi de mim mesmo, você aproveitou, e perdeu-se de mim também [...]"

Na dor da ausência que nos leva à reflexão acerca vida que um dia sonhamos para nós em um curto espaço de tempo, onde nossas vontades não prevalecem e nossos planos se tornam desejos, por que um, não ama por dois.

Quando os gatos lunares encontrarem Rodolfo Valentino, irão levar até ele o recado de que eu sofri com cada página, e estou impossibilitado de me resgatar, não mais. Pois meus desejos, vontades e anseios encontram-se nas limitações de uma outra pessoa onde eu acreditava que era capaz de fazer tudo, e nada, ao mesmo tempo.

Encontra-se para se encontrar em um outro alguém, sem projetar esperanças, sonhos e reviver várias vezes um único momento inesquecível antes de seguir um rumo, é uma tarefa complicada, e muita das vezes, fracassada.

Adalberto Souza mostra-nos um universo alternativo acerca das questões ligadas ao coração, desmistificando o mito de que tudo é pleno, cônscio, e perfeito no amor, e quando não há um retorno à altura, ficamos frustrados, desiludidos, alimentando sonhos, momentos e sentimentos infundados. Sensibilidade para com aqueles que precisam de compaixão, não é o foco desta narrativa. Tratar de momentos onde nos encontramos sem expectativa para seguir em frente? Também não é o foco desta narrativa. Rasgando-nos de dentro para fora sem a intenção de curar-nos, esta escrita possui diversas interpretações, vontades, sonhos, desejos e reflexos em um único volume, onde vontades se cruzam e desejos se tornam apenas parte daquilo o que possuímos um dia. Sua interpretação vai ser de acordo com o que o seu coração está sentindo neste momento.

Atreva-se a ser ousado e enfrente o que há dentro de você. Quando os gatos lunares encontrarem Rodolfo Valentino é um livro que vai te rasgar e te resgatar de um passado, ou talvez, seja o seu presente, a verdade é que ninguém nunca saberá além de você. Em poucas palavras, mas em muitas situações, Adalberto provoca o nosso íntimo e a nossa reflexão acerca dos tópicos ligados ao coração e ao inebriar das vontades que viajam e circulam entre o que eu quero, desejo e sinto, ou entre o que eu queria e o que você não conseguiu suprir. Mas também viaja entre a ausência e a essência do que queríamos que a vida fosse se nossos planos tivessem dado certo, este livro é a explanação do que eu e você sentimos quando planejamos toda a nossa vida e colocamos todas as expectativas em um alguém que não supre nem o nosso dia a dia.


O passado o agora e o talvez, ah, o TALVEZ é o que rasga. Por que dentro das incertezas mora o perigo, por que foi através da incerteza que nos encontramos no estado em que estamos agora: Desolados, desiludidos, parcos."

 

http://www.proximoparagrafo.com.br/2017/03/resenha-quando-os-gatos-lunares.html

 

 

 



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Meu peito é um caminhão de mudança abarrotado com todas as lembranças que você deixou – Jean Albuquerque


Adalberto Souza

25/04/2017 09h47

        O título do livro já me conquistou e me intrigou. Começo a imaginar um caminhão de mudanças deixando tudo empilhado num canto da carroceria manchada de outras mudanças, aquelas tantas coisas esquecidas e que você nem sabia que ainda tinha guardado até que começa a revirar as tantas caixas inúteis de coisas velhas.

         E a minha ansiedade foi plenamente recompensada com a literatura de Meu peito é um caminhão de mudança abarrotado com todas as lembranças que você deixou (Oxente Records – RJ) de Jean Albuquerque. Seu texto é ácido, é ferino, é instigante e é extremamente realístico e dolorido, sem meias verdades (ou meias mentiras?) cada poema é uma lancinante palpitação naquele sentimento que finge adormecer. E dói.

         O autor escreve como se não houvesse outra coisa a ser feita. Usa a poesia para nocautear o leitor e isso é evidente em todas as paginas, seja nas poesias ou ainda numa segunda parte: “ Sou um pugilista bêbado que dança no escuro depois de ter perdido a guarda dos filhos em uma batalha judicial”, composta de prosas poéticas que fluem como um suspiro final na correria desenfreada do despertar de sua poesia e funciona quase como um segundo livro com um título tão bom quanto o do qual está contido.

         “Eu já estou morto faz anos / Este aqui não sou eu / Sou o que sobrou da vida / Senta aqui, passa um café / Vamos ouvir Odair José / Lembrar quanto fomos sacanas um com o outro / A cidade que deixei / E todos ou outros planos que não se concretizaram” A poesia do autor é repleta de referências de uma cultura bastante cotidiana, bares, cantores, situações corriqueiras, outras nem tanto assim, tudo serve para ser transformado em lirismo e isso é uma característica bem marcante em todo seu texto.

Seus temas e seus voos são aqueles que podem ser compartilhados com qualquer leitor, enlaçando-os numa cumplicidade, permitindo uma identificação imediata com a cidade, a música, o palpável da realidade, o possível de ser visto e ouvido bem ali na esquina onde aparece “o travesti fazendo ponto no centro” é um dos grandes trunfos de sua literatura.

Intenso na medida certa, lírico onde tem que ser, consistente e cortante, um livro que não será esquecido tão cedo, um livro que irá fazer lembrar sempre que “a gente tem medo de acabar numa camisa de força”. 

 

Contato: https://www.facebook.com/jean.albuquerque.735944?fref=ts

 



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Domingo é dia de morrer – José Valdemar de Oliveira


Adalberto Souza

17/03/2017 07h02

“ Cada espelho reflete uma fisionomia de minha pessoa. Sempre me busco neles, sem contudo me achar. Se negam a dizer quem sou. Têm medo de mim? Hahahahahahaha. Ou querem insinuar que tenho diversas faces. Será? Hum.” (p.77)

 

         José Valdemar de Oliveira é um escritor vigoroso. Sua literatura é peso pesado num octógono de batalhas ferozes. A raiva, o ódio, rancor e a angústia, distribuídos ao longo dos nove contos dosados na medida certa é um grito desesperado no escuro, daquele que se ouve e não se sabe de onde vem. Seu mais recente livro Domingo é Dia de Morrer (Editora Penalux) é mais uma prova de sua versatilidade.

         Sua ficção é tão passível e verossímil que o estranhamento inicial torna-se algo mais possível e assustador pela possibilidade, pela proximidade (quem sabe um vizinho, um parente, um amigo, em uma situação retratada no livro, vivendo extenuantemente num extremo de suas emoções).

As situações em questão são extremas e exigem atitudes desesperadas e urgentes e o leitor é tomado de assalto, já montando possíveis soluções para algo aparentemente insolúvel. A morte da filha (Minha menininha, p. 61), o sentimento ou a falta dele num garotinho que acaba de perder o pai (Profana inocência, p. 49), mas não perde o casamento do palhaço, sua angústia e sofrimento pelo advindo, são sensações claustrofóbicas e conduzidas de tal forma que praticamente nos sentimos juntos naquela plateia, olhando aquele menino, sentindo sua culpa e ouvindo seu grito.

No conto que dá título ao livro (p 35), Valdemar explora aqueles sentimentos em turbilhão que assaltam o domingo, que acabam culminando numa tempestade contraditória. Algo entre tédio e euforia, uma vontade de ir, ficando ao mesmo tempo. Um sentido perdido de espaço-tédio-tempo, tal qual aquela música que fica martelando incansavelmente o desatino de estar em casa, sozinho num domingo à noite. O autor expõe tudo isso de forma linda e cruel. 

O conto é uma ressaca de tudo e de nada ao mesmo tempo, como o domingo parece ser. Cruel e cortante, cheio de questionamentos e confrontações e também de manter os diálogos internos mais vividos e transbordantes de verdades inventadas, aquela para justificar o que não pode existir. O autor continua afiado do início ao fim, não perde o fôlego e esse conto é para ser lido assim, de um fôlego só. 

Tal como em seus outro livros,  a escrita do autor continua viciante, não dá para largar sem antes saber o que acontece, o fluxo de pensamento em suas personagens é tão intrincado e instigante que já nas primeiras linhas nos sentimos coparticipes com cada uma delas. Ao tratar as vicissitudes e seus desdobramentos, o autor nos faz partilhar também vividamente da vida de cada personagem como se elas estivessem ali, a um braço de distância.

No conto O mensageiro (p. 21), tal como um Gregor Samsa, o cidadão acorda e não sabe mais quem ele é, metamorfoseado em uma coisa inerte e cheia de tentáculos mentais, buscando coisas e situações que possam explicar quem ele poderia ser até a epifania final, onde realmente metamorfoseado, aparece em uma realidade inebriante e totalmente diferente da sua, uma criatura “perfeitamente imperfeita”

Essa é uma das características da literatura do Valdemar, uma urgência em ser e saber e ser tudo logo de uma vez, arrancar de uma vez o esparadrapo que encobre parcamente a ferida escondida, sofregamente pronta para doer.

Onde achar:  https://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=524

 

 



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Gertrude Sabe Tudo – L. Rafael Nolli


Adalberto Souza

09/02/2017 18h35

 

            Um conto para crianças. Uma história de fadas, pós-moderna. Cheia de personagens simpáticos, uma heroína cativante e reviravoltas para lá de interessantes. Onde a preocupação de ser e estar no mundo, funciona como fio condutor para o livro Gertrude Sabe Tudo ( Editora Guliver, 2016), do escritor, poeta e professor Rafael Nolli.

            O livro gira em torno da menina Gertrude, que orgulhosa propaga a quem quiser ouvir que seu nome é de origem germânica e que significa forte no manejo da lança, uma guerreira. Mas segundo sua mãe a origem é bem mais modesta, coisa que a menina não presta muita atenção.

            Ela é uma menina normal, até que os outros (sempre eles) se dão conta de que algo não está da forma que deveria ser. Ela sabe mais do que deveria (como se conhecimento fosse medida estanque para qualquer coisa). Gertrude sabe das peculiaridades dos indivíduos e não tem medo de dizer o que pensa, e aos poucos ela vai sando olhada de soslaio. Seja porque ela sabe mais que os meninos, seja porque ela sabe mais que os adultos. Até que um dia esses mesmos adultos resolvem tomar uma atitude, e é aí que a coisa muda de figura.

            O autor toca em diversas questões para mostrar sentimentos e crueldades, bullying e outras formas de ver e/ou não ver, saber e/ou não saber o outro.   Ele apresenta um livro que deve ser lido pelos pais para os filhos e pelos filhos para os pais. Por professores no trato com seus alunos e por alunos no trato com seus colegas de escola.

            O desenrolar da história da menina que sabia de tudo, deve ser conhecido e principalmente pensado e discutido. Trazer à tona uma reflexão sobre o comportamento dentro e fora de casa.

            Gertrude é um pouco de cada um de nós, com nossas idiossincrasias e tentando ser o que realmente desejamos ser, num mundo cada vez mais estranho. Acredito que a experiência do autor em sala de aula deve ter colaborado muito para o desenrolar da trajetória da menina guerreira.

 

O que: Gertrude sabe tudo - L. Rafael Nolli

Onde: http://gullivereditora.com.br/?product=gertrude-sabe-tudo

 



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Um Silêncio Avassalador - Lucas Barroso


Adalberto Souza

20/01/2017 21h48

A conversa de hoje é sobre segredos, sombras e desejos. A conversa de hoje é sobre tudo aquilo que nos faz calar e perguntar: será?

A conversa de hoje é sobre a ensurdecedora calmaria carregada de curiosidades inconfessáveis e rituais bem poucos discutidos em rodas de amigos.

Com essa curiosidade, me deparei com o novo livro de contos do escritor Lucas Barroso, Um Silêncio Avassalador, que a Editora Moinhos lançou em 2016.

Em sua definição, silêncio é ausência de qualquer ruído, ou ainda, mais idilicamente, sossego, repouso, inação e avassalador significa possuir domínio ou ter poder completo sobre outra coisa ou pessoa. E nada poderia descrever melhor a sensação que fica com a leitura desse livro. Um poderoso silêncio dominador. Aquele que vai fazer pensar por vários dias. Um inquietante sentimento de que sua alma foi escrutinada e desse processo não se pode voltar de mãos vazias.

A escrita bem pensada do autor, sua forma de conduzir as situações levando o leitor ao máximo de curiosidade, como é o caso do impactante conto: “Quando Fui Puta” (p. 20). É o ponto chave do livro. Um apuro linguístico na transposição das falas dos personagens quase dá para ouvir, em sua taciturnidade dominadora, suas falas in loco.

As coisas e situações presentes em todos os contos, assustam e encantam, muito pelo real e também muito pelo imagético de que aquilo pode em algum momento ser possível. Nada é inimaginável dentro desse universo que o autor descreve.

É silêncio, sim. É avassalador, sim. O que Barroso propõe é aquela sensação de vazio que preenche o espaço antes da explosão. O livro é inflamável e cortante. A sensação é de que algo está diferente na ordem das coisas, o autor expõe medos e trata de temas palpáveis em nossos dias. Violência, autopunição, retratação e uma boa dose de perversões, ou seja, nada distante da realidade que vivenciamos.

É disso que o livro trata, do lado obscuro e impactante da alma. Aquele domado por leis próprias e carregados de sombras, prestes a eclodir, escondido atrás de máscaras sociais (policial, professor) mas latentes em desejos inconfessáveis e ilegais ou ainda no surpreendente  “Como um filme de Almodóvar” (p. 79), um singelo e inesperado registro de como a alma humana pode surpreender.

A sensação depois de cada leitura, de cada um desses contos é de uma passagem por uma centrífuga, e isso é bom, cada solavanco é sentido em sua máxima potência. Uma leitura que irá ecoar por um bom tempo. Lucas Barroso é esse tipo de escritor, que irá te acompanhar por muitos dias depois da última página de seu inquietante livro.

Serviço: Um silêncio Avassalador - Lucas Barroso

Onde: http://editoramoinhos.com.br/loja/um-silencio-avassalador/



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Meu Coração é um Bar Vazio Tocando Belchior - Diego Moraes


Adalberto Souza

05/01/2017 20h04

             Alguma coisa acontece quando leio Diego Moraes. Minha atmosfera muda imediatamente, já me vejo num bar enfumaçado com cheiro de mil cigarros já fumados e de decepções esfregadas na cara e bebidas estupidamente geladas em copos de cerveja baratas, no ponto máximo da espera por um outro amor. Sinto como quem “senta num bar vagabundo do Amazonas e entende que poetas são discos empoeirados num sebo entrando em falência. Entende que poetas são barcos naufragando”.

            Em 2016 a Editora Penalux, lançou o livro Meu Coração é um Bar Vazio Tocando Belchior do escritor Diego Moraes. E mais uma vez a poesia do autor é um brinde aos olhos e a sede desejosa de algo que descreva de forma tão clara as tantas porradas no coração, é poesia pura e completa, lapidada no calor da emoção, naquele mesmo momento em que é sentida.

            O que Diego Moraes faz é traduzir os suspiros arrancados do fundo do bar, aqueles que escondem os maiores sentimentos, traições, amores perdidos, corações estilhaçados e remorsos contidos, e transformar tudo numa primorosa mistura de contos e poemas, onde fica quase palpável a identificação com os temas do livro, aquela mesma identificação que dá ao leitor a sensação de andar “com chiados de uma estação lírica fora de sintonia dentro do peito”.

            O autor consegue impregnar tudo o que escreve com uma realidade lírica que pode ser a de qualquer um. A sensação é de que ele traduz a alma em versos. Os temas do livro vão desde a amada que não foi fiel ou aquela ex-dona de um coração que sangra versos como esse, no final do poema Chuva: “Escrevo agora porque escrevi seu nome no meu último cigarro do maço e fumei lentamente até a chuva passar”.

É identificação direta com o leitor. É como encontrar a tradução do que já não se sabe dizer, encontrar alento nas baladas românticas que tocam à meia-noite, à meia-luz, uma vida inteira de esperas e diálogos internos cheios de intensas vidas, vividas quase que inteira e imediatamente urgente e inquietante, assim como a boa poesia deve ser.

            Moraes constrói cuidadosamente seus versos observando o que está a seu redor. Sua lírica é aquela dos que estão abandonados, dos traídos e dos encontrados na noite. Seus poemas são observações daqueles que ficam por último, que esperam o bar fechar e que tudo se resolva depois que aquela canção terminar ou apenas resta juntar “as moedas do bolso, passar na borboleta da linha do adeus e a saudade embolora de vez o abraço numa fotografia tirada em 1989.” E se nada mais der certo ainda resta a opção de colocar “seus amores para vender no Mercado Livre”.

 

Serviço:

Livro: Meu Coração é um Bar Vazio Tocando Belchior - Diego Moraes

Onde: http://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=380

 

 

 

 



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