CULTURA

A ópera e as montagens ”modernas” - Eduardo Xavier


Adalberto Souza

02/06/2020 20h46

A colaboração dessa semana fica por conta do ótimo texto do professor Eduardo Xavier:

 

Porque está em entre parênteses, não carrego “moderna” com um sentido pejorativo, mas aponto uma antinomia entre o que é a ópera e o que se pretende dela nas montagens nas últimas décadas, senão vejamos! A ópera é um teatro musicado, grosso modo de uma explicação rapidíssima, mas é a pura verdade. Tem quatrocentos e vinte anos de história se tomarmos como marco referencial a data de 1600 com a apresentação da “Euridice”, ópera com versos de Ottavio Rinuccini (1562-1621), musicada inicialmente por Peri (1561-1633) e depois por Giulio Caccini (1551-1618). Claro, outras “óperas” foram apresentadas antes, como “Rappresentazione di Anima e  Corpo”, de Emilio de Cavalieri (11530-1602) e uma certa “Dafne” (1594), dos mesmos Rinuccini e Peri. Nada de muito estrepitoso quanto a citada “Euridice”. Bem, não quero falar da história dessa encantadora e instigante forma de expressão musical que congrega poesia, música, dança, cenografia, figurino, iluminação, maquiagem e costura, pintura, engenharia e carpintaria, mas falar das montagens que, de certa forma, fogem àquilo proposto pelo argumento. Tornou-se quase uma moda, sob a desculpa de fugir do “mesmismo”, representar aquilo que dita o libreto, antes a história, sob uma “ótica” atualizada. Uma história de conquistas, mortes e seduções setecentista passou a ser ambientada no Harlem novaiorquino da segunda metade do século XX na ópera “Don Giovanni” (1787), de Mozart (1756-1791). E que tal a “Navio Fantasma” (1843), de Wagner (1813-1883), que pelo próprio título sugere mares e portos, passar a ser exibida no Muro de Berlim, quando ele ainda existia? Ou a história de camponeses apaixonados que vivem às turras, morando no campo, ser transferida à beira-mar, com banhistas de calção e biquini, na “L’Elisir d’Amore (1832), de Donizzetti (1797-1848)?  Sob o pretexto das atualizações, outro nome para ideologização da montagem, propõem-se as mais estapafúrdias encenações fugindo, o mais das vezes, àquilo que dita o argumento e a poesia (libreto) da “opera in musica”, um dos primeiros nomes dados à ópera. Os defesas para as montagens as mais distintas, daquelas de achar pelo em ovo, mas incomoda ver que a Violetta, personagem de “La Traviata” (1853), de Verdi (1813-1901), pode vir a se divertir (Ato I), afastar-se do seu amado Alfredo (Ato II) e morrer (Ato III) numa casa da luz vermelha, já que a mocinha da trama é uma das de vida nada fácil, que vive às mil maravilhas numa Paris feérica do século XIX! E quê linguagem anacrônica seria o libreto de Francesco Maria Piave para um puteiro dos anos 2000! E que tal Manrico, personagem da “Il Trovatore” (1853) do mesmo Verdi, como o nome da ópera sugere, O Trovador, vir a se transformar em um roqueiro e, portado a sua guitarra elétrica (mesmo que não a toque em cena) cantar na Cena III da Parte Prima, Il Duelo, numa tradução literal do italiano original, “deserto sobre a terra, com um perverso destino em guerra, é apenas esperança um coração”, algo que não condiz com o “descolamento” da linguagem do rock. Manrico fala a linguagem do século XIX, ó senhor cara pálida regisseur, o diretor de ópera! Mas seria interessante ver a Turadot (1926) de Puccini (1858-1924), obra dentro dos temas exóticos do compositor, desta vez focando a China, ambientada num laboratório nos finais de 2019 e começo de 2020? E tanto Turandot e seu pretendente Calaf, ambos cientistas,  dando a entender que dando que procuram a resposta para um enigma, não o amor,  mas como surgiu o vírus chinês! Ah, graça nenhuma! Os libretos, em sua extensa maioria, não combinam com as montagens “modernas”. Acredito que ou os diretores se aproveitam do fato de que nem todos entendem efetivamente as línguas nas quais as óperas são cantadas (mesmo com as traduções, que podem ser falhas) ou querem tirar sarro da cara da plateia: são provocadores contumazes, apenas! Ou nada disso, agem por pura ideologia e só!



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