CULTURA

A porção diamante do vidro


Adalberto Souza

16/05/2020 01h24

 

No começo das férias era sempre assim. Guarda essa, tira aquela, esse short branco não, vai voltar emporcalhado. A mãe cuidava dos detalhes práticos, meias, calças, calções. Corria de um lado para outro, afogueada. O pai olhava e bocejava, visualizava a mulher correndo e os pequenos sonhando e correndo atrás da mãe, nervosos e guardando brinquedos nas malas, escondidos da mãe que como um general, recrutava todo espaço para mais uma bermuda ou um casaquinho para o frio tropical.

O pai não acreditava que mais um ano já tinha derrapado na curva do tempo. Virava para o lado e dormia, sonhava com as próximas duas semanas de sossego, sem a correria e a gritarias dos traquinas. “Dorme menino que amanhã chega logo”, tentava a mãe acalentar o mais velho, olhos brilhando, vidrados nas mil aventuras que iria viver. Espírito irrequieto sonhava ser um caçador de tesouros em busca de ouro, prata, platina, ágata ou rubi.

Os menores, cansados da correria diária dormiam pesado, sonhando com a viagem. Cedinho, cedinho, toda a meninada da rua já de pé, olhos invejosos e saudosos, chegavam juntos da velha Rural Willys para esperar a partida dos amigos. Invejosos das aventuras que não iriam viver e saudosos dos queridos amigos que iam; restava apenas à espera das histórias que iriam ouvir de bocas felizes no final das férias.

E lá se iam os três, aboletados no banco de trás, olhando o cabelo ondulado do pai e o coque apertado da mãe, ainda cheia de recomendações: obedeça a tia, ajude a avó, não judei dos primos, fique longe do tio. E falava... e falava... e recomendava... e chorava... e saudades já sentia dos pequenos. O pai olhava e resmungava: “Manteiga derretida!”, sem mostrar que o coração apertadinho também sentiria falta dos rebentos. E chacoalhava a velha Rural Willys estrada afora.

O grande paredão de barro vermelho no quintal da casa da tia era um atrativo que mais parecia bala puxa-puxa quentinha saindo do fogo e mergulhada na água fria. Imponente, dominava todo o quintal, subia até perder-se de vista, cheio de cores misturadas, como um arco-íris bem ali pertinho, pronto para ser tocado. Era uma festa. As férias tão arduamente desejadas chegaram e a meninada a sonhar com o barro entre os dedos. A tia esperando no portão de madeira no primeiro dia da semana quando o irmão levava os três, dois meninos e a mais nova, que sendo a primeira vez que a mãe deixava ir com os irmãos, ainda não sabia das aventuras que estava por viver.

As primas, duas, e o primo mais novo, louco para aprontar das dele, fazendo maldades e judiando dos menores. A velha avó, doceira de mão cheia, fazia quitutes e guloseimas para os que chegavam, saudosa dos netos e do filho.

Amigos dos primos apareciam aos montes, era só a tia sair que as recomendações saíam com ela. A velha avó que adorava ver os pequenos brincarem, abria o portão que dava para o quintal e soltava o rebanho sedento por mãos barrentas. E era uma mesa de barro que aparecia, outro fazia um prato, um copo e a mesa estava posta. Sentavam todos ao redor e fingiam comer, sonhando com bolos e biscoitos e chocolate quentinho. As meninas queriam que os meninos ficassem nesse comes e bebes, mas os pirralhos, loucos por aventuras, paciência não tinham e logo, logo se enfastiavam desse maçante chá. Restava às moças continuarem suas aventuras gastronômicas.

O mais velho, afoito, adorava escalar o paredão; chegar ao topo não conseguia nunca, pertinho, pertinho a avó chamava, “Entra, entra, meninada, a tia já já chega”. A debandada era geral: entra menino, corre menina, sai vizinho, chega vizinha, toma banho, esconde a roupa amarelada de barro, a tia não pode ver.

Todo dia a mesma coisa. A tia saía, a meninada corria ao paredão. Dias depois chegou a prima mais velha com uma novidade: “Achei um diamante!”. Olhos correram, invejas galoparam, mãos tremeram. Cada um pensava que também queria um diamante. O mais velho sonhava com viagens e descobertas de tesouros, o outro pensava em quantos Falcons poderia comprar. A prima gorducha pensava em comprar uma padaria que faria sonhos de todos os tipos e todos os dias só para ela, e começava a trocar os recheios e experimentar sabores, hummm..., chocolate com morango, banana com mel, e misturava feijão com arroz num sabor que achava melhor deixar para lá. A mais velha pensava num namorado e a mais novinha pensava: “O que é um diamante?”. Coitadinha, só pensava, ousar perguntar não ousava, tinha medo do cascudo do primo mais novo.

E a danada da prima não mostrava o bendito diamante. E pediam e ameaçavam e a danada nem titubeava. “Diamante meu não mostro assim, não”. E propôs a brincadeira: já havia escondido o tesouro, “Agora é só procurar, cambada, quem achar hoje esconde amanhã, todos procuram outra vez e assim até o final das férias, quem achar no último dia é o dono da riqueza”.

Pronto, estava armada a maior aventura; era uma preparação aqui outra ali, era uma a bajular a prima oferecendo biscoito extra no lanche, até o vizinho mais assanhado prometendo beijo, e a moleca irredutível: “Vamos procurar”. E a tia não saía, olhava no espelho, voltava para o banheiro, arrumava o travesseiro no quarto e ir pra rua, nada. Parecia pressentir a excitação dos meninos. Portão da frente fechado, debandada geral. Tá quente, tá frio e assim passavam o dia, tia chegando, para dentro meninada e estranhava a tia aquelas carinhas tristes, nada tinham encontrado.

Outro dia, outra procura e a danada da prima não falava. A gorducha, encrenqueira e espevitada, mastigava seu pão com manteiga a dizer: “É mentira dessa aí”. O mais velho não se cansava, era uma aventura subir no paredão, revirar os torrões de barro. Aos poucos a descoberta: na parte mais alta o barro era seco e colorido, não só o vermelho e amarelo do barro molhado, mas também branco e vermelho e um pouco laranja.

Trazia pequenas porções com as quais as meninas, já cansadas dessa história de tesouro voltavam a brincar de chá; agora o chá poderia ser branco, grená e rosa que aparecia quando misturavam as cores. Os meninos aventureiros subiam e desciam, reviravam e nada.

Dias passando, chega a tia com a novidade: “Molecada dia do sorvete”. E lá ia a tia, cansada do dia inteiro de trabalho, arrastando aquela fileira de endiabrados, cada um querendo um sabor diferente, e o mais velho querendo seu cobiçado diamante.

Domingo: corre-corre, cedinho, cedinho a avó levanta e prepara seus quitutes para o dia mais esperado. A praia. Aos poucos a casa começa a despertar. Acordando o primeiro peralta e todos os outros como que combinados já estavam também acordados. Só faltava levantar a tia. Corre pra lá, corre pra cá e a tia estava pronta, e lá se vai o cortejo carregado de delícias e energia. E pula e salta e salta e mergulha e pula. Volta agora, não!. “Vamos, tá na hora molecada” – chamava o tio, e corriam, todos mais por medo do tio policial do que por vontade. Já na cama ainda com o balanço do mar no corpo e o cheiro de sal na pele, cansados, cada um pensava no diamante, uns achando mentira da prima e outros sonhando com riquezas.

Segunda, última semana das férias. Tia trabalhando, busca começando.

Terça. Quarta. Quinta, e a prima mais velha começa com a gritaria, acode a avó: “O que foi, menina?”. Uma caranguejeira, um monstro, parecia um fusca de tão grande. Pronto, a confusão estava instalada, chegavam os valentões e procura que procura, as meninas corriam desembaladas, trombavam umas nas outras e nada da monstrenga aparecer, e caça e procura e nada da monstrenga aparecer, e caça e procura, e o mais novo, gaiato como ele só, arruma uma folha seca e joga no meio do chá das meninas que, já cansadas da correria, tinham voltado aos afazeres. O mundo caiu, uma jurou que a monstrenga chegou voando, outra que viu os olhos piscando. Mas o que se viu foi chá de barro, boneca suja e canelas machucadas. A pobre da aranha até hoje deve contar aos seus netos o dia em que encontrou as loucas gritadeiras.

O mais velho não se dava por vencido. A farra da aranha acontecendo e ele procurando. Procurando e subindo e escalando o paredão. A roupa já não tinha cor, era de barro, quando finalzinho da tarde acabava a brincadeira, todos estavam enlameados, só os olhos pareciam limpos, até as almas estavam enlameadas. Felizes de barro.

Sexta. Apenas mais dois dias para o barulho da velha Rural do pai rasgar o domingo modorrento da cidadezinha. O mais velho arteiro e fagueiro, iniciava suas buscas numa parte onde a água das brincadeiras das meninas molhava o barro e o deixava escorregadio, e passa para lá e passa para cá, e pra lá e pra cá e se esborracha no chão.

Os pequenos rolavam de rir, as meninas tomavam chá e riam; até a avó que veio ver o motivo da algazarra ria também. O mais velho mexia para lá e para cá tentando levantar, e quanto mais mexia mais sujo ficava e, de repente começa a rir, e gargalha e olha para a prima e descobre que o tesouro estava bem ali, igual à carta escondida, estava bem à vista o tempo inteiro, dentro de uma pequenina casinha feita nas férias do outro ano. E ria e olhava para a prima e ninguém entendeu nada. Ele destrói a casinha e levanta o diamante, e todos param de rir e olham cobiçosos e admirados para o grande caçador de tesouros.

Ele conseguiu! Corre para a lavanderia e começa a lavar seu tesouro, e os lampejos do sol no vidro lapidado do diamante do colar falso da tia, comprado numa feira hippie, aparece radioso em sua mão. Ele era o poderoso, dono do tesouro, rei das férias e olhava seu diamante; ninguém sabia a origem dele, ninguém, só a prima sabia da feira e coisa nenhuma disse.

Hora de dormir, ele segurava seu tesouro até a tia aparecer e apagar a luz, e então colocava seu tesouro debaixo do travesseiro para sonhar com viagens e aventuras, e o resto das férias foi um sonho.

O mais velho com seu tesouro. A gorducha sonhando com as guloseimas que a tia traria. A prima sonhando como iria devolver o diamante da mãe. E ou outros cansados de tantas brincadeiras, só pensavam em voltar e contar aos amigos da rua suas aventuras.

Domingo cedinho, o som da Rural Willys já se ouvia. A mãe já chorava de saudade dos seus pequenos, o pai olhava resmungando e com olhos marejados murmurava: “Manteiga derretida!”. E lá na casa a avó coava o café novinho, o tio chegava com o pão e os pequenos começavam a algazarra e a tia ralhava aflitíssima, pensando em tantas roupas para lavar. Pensava na cunhada lá longe, não podia devolver os pequerruchos com as malas repletas de roupas amarelas. Repletas de roupas amarelas, crianças repletas de doces, almas amarelas, saudosas do amarelo avermelhado do doce paredão de barro.

E o mais velho com seu tesouro...



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