CULTURA

A voz lírica e a voz popular - Eduardo Xavier


Adalberto Souza

23/06/2020 09h47

Essa semana o blog vem com mais uma excelente contribuição do Professor Eduardo Xavier, confiram:

 

Popularmente se diz que toda “voz de ópera”, como é conhecida a voz lírica ou erudita, é igual,  “é uma música do grito”! Vindo os ataques não apenas das camadas populares, mas também das mais abastadas, trata-se mesmo de ignorância e prevenção (em outras palavras, desconhecimento que leva ao preconceito), fenômeno que não é de hoje! Mas o que mesmo distingue a voz lírica da popular? Ora, se os aparelhos, ou efetores, que contribuem para a fonação são os mesmos num cantor popular e num erudito, o dito cantor lírico, por que raios a voz deste se distingue da voz daquele? A resposta é simples: a cientificidade aplicada à arte! O cantor popular usa a sua voz na menor potência que ela lhe poderia lhe proporcionar, já que o seu canto não exige maiores dificuldades e só cantam com microfones. Não cuidam da respiração nem usam das notas muito graves ou agudas, muito menos se preocupam com estilo e mesmo de interpretação. O canto lírico, porque une a ciência (não a da tão em voga OMS, vale ressaltar) à arte, não prescinde dos estudos continuados da respiração, do “alargamento” da extensão vocal, ou seja, as possibilidades do cantor ir às notas mais graves como às agudas de sua extensão, exercícios de rapidez vocal, técnicas de como executar notas muito agudas cantando-as muito docemente (pianíssimo), entre outras, além da prática da interpretação de repertório, até mesmo na distinção de compositor dentro de um mesmo período histórico. Por exemplo, não se canta Giuseppe Verdi (1813-1901) como se cantasse Richard Wagner (1813-1883): pode até ser o mesmo cantor ou cantora, mas a forma, ou estilo de cantar é bem diferente. Não se canta uma peça do século XVII do mesmo modo como se canta uma do século XIX e mais, não se canta uma canção artística, o Lied (Canção, em alemão) como se canta uma ária de ópera, que também não deixa de ser uma canção, mas inserida no contexto dramático de uma ópera. E mais, o desenvolvimento da potência vocal (aliada da impostação, imprópria ao canto popular), já que cantam em teatros para até 3 mil pessoas, sem o uso do microfone, algo impossível para um cantor popular! O canto popular não explora a respiração, não existe maior exploração da tessitura (ou seja, a distância entre a nota mais grave à mais aguda de uma peça); não existe no canto popular o uso de artifícios técnicos como trinados, mordentes, grupetos, etc., já que o canto popular é direto, rápido e conciso. O canto lírico exige maior expressividade e por isso carece de maiores recursos nesse sentido. Algo que o canto popular não explora é a interpretação da palavra, condição sine qua non do canto lírico. Os cantores populares destas últimas gerações, muitos não sabem nem o que é isso, já que o que cantam não sobe mais alto que uma barra de rodapé, vide o recente repertório. Mas que isto não seja motivo de choque para o leitor: ouçam apenas dois cantores populares da chamada Era de Ouro do Rádio, Elizeth Cardoso (1920-1990) e Cauby Peixoto (1931-2016) e se deixe levar pelas asas do grande canto popular! Mas por que disto? Ah, os tempos eram outros e as exigências de estilo e estética eram muito mais apuradas e refinadas. Muito do canto popular brasileiro dos anos 30 ao 50 tem um dedinho da influência do canto lírico com base na “redondeza” da voz, nos sons mais doces, nas frases ligadas (legato) nas canções românticas, os sambas-canções ou boleros, tudo isso muito caro à técnica do canto lírico. Até as canções mais saracoteadas, como “Nega Maluca” (1955), de Evaldo Rui e Fernando Lobo, interpretada por Linda Batista (1919-1988) ou “Quem sabe da minha vida sou eu” (1941), de Alpheu de Brito e Russo do Pandeiro têm a graça da interpretação própria ao canto lírico. Ah, vejam que eu disse que Linda Batista interpretava, não só cantava. Eis a aproximação do canto lírico com esse grande canto popular que, nos tempos que correm, nada mais os aproxima, a não ser neste algo parecido com notas musicais desperdiçadas por vozes as mais deseducadas possíveis, cheias de vícios odientos, como o cantar propistalmente fanho e a voz rouca, algo impensável no canto lírico. Afinal, o que diferencia os dois cantos? Já disse antes, mas repito aqui: a cientificidade aplicada à arte da música! E pronto!

 

 



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