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Reflexão sobre os Efeitos da Crise do Covid-19


Blog Opinião

29/04/2020 06h14

Reflexão sobre os Efeitos da Crise do Covid-19 nos Empreendimentos e nos Profissionais

Por Antônio Pinaud*

É um fato a gravidade da pandemia do Covid-19 na saúde das pessoas e no mundo dos negócios, consequentemente nas empresas, seus empreendedores e profissionais. É uma situação que não foi prevista e que gera muita incerteza. O importante é reconhecer o problema de forma pragmática, sem diminuir, negar ou aumentar. Existem formas de minimizar os efeitos negativos da crise por meio da criatividade e inovação, os alicerces e porta de saída de graves problemas econômicos e sociais.

Devemos olhar esta crise como um grande aprendizado. A sociedade não estava preparada para este tipo de problema. As coisas irão mudar e quem perceber quais serão as mudanças e se adaptar mais rapidamente, ficará em uma situação melhor. Está ocorrendo um processo de “Darwianismo”, seleção natural, no mundo dos negócios, nas organizações e consequentemente nos perfis empreendedores, profissionais e de lideranças, de uma forma muito veloz, provocada por esta crise inusitada.

O mundo em um primeiro momento ficará mais pobre e as organizações e profissionais deverão rever os seus modelos de negócios e suas habilidades técnicas e profissionais para se adaptarem a este novo cenário. As coisas não voltarão como eram antes, serão diferentes, não quer dizer que serão melhores ou piores, serão diferentes, esta é a realidade. Se observarmos o processo da evolução na natureza, quando ocorrem mudanças no ambiente, ocorrem também mudanças nas características e habilidades dos seres vivos, consequentemente os mais adaptados evoluirão e sobreviverão. Podemos não gostar disso mais é uma realidade comprovada pela ciência.

Reconhecendo o processo de evolução natural devido as grandes mudanças de cenário e ambiente, que já estão impactando o mundo dos negócios, suas organizações, empreendedores, líderes e profissionais, será menos doloroso se nos adaptarmos, sermos flexíveis e conscientes deste processo. Os seres humanos, diferentes dos demais animais, não precisam mudar suas características físicas para se adaptar ao ambiente e sim mudar a sua forma de pensar, o seu mapa mental, o seu “mindset” e aprender novas habilidades que serão necessárias em um novo cenário.

Em relação as habilidades, perfis e modelos de negócios futuros é possível percebermos alguns sinais ao nosso redor e projetarmos, sem muito risco, o que será descortinado pela nossa frente, apesar das incertezas. Neste sentido, podemos fazer algumas reflexões observando as mudanças do passado, as atuais e as tendências, com isso projetar algumas coisas. Por exemplo, uma tendência natural do processo evolutivo é que seres vivos que formam laços mais próximos e trabalham de forma coletiva tendem a ter mais sucesso dos que vivem de forma individual ou isolada. Isso nos remete a desenvolvermos um perfil mais colaborativo e solidário. Então o processo do cooperativismo e associativismo ganhará força e todos deverão desenvolver conhecimentos e habilidade de colaboração e trabalho cooperativo, seja entre profissionais, empresas, setores e suas cadeias produtivas.

Ainda refletindo sobre as tendências, a digitalização e a automação que todos estão passando, transformando processos analógicos em digitais de uma hora para outra em alguns setores e suas empresas é outra realidade que era sabido, porém não na velocidade apresentada por este período de crise, o que impactará na estrutura das organizações, no perfil dos profissionais, empreendedores e seus líderes. Um bom exemplo do que está acontecendo é o “home office” que muitos profissionais e empreendedores estão tendo que fazer para se adaptar, com o objetivo de se manterem ativos. O aumento exponencial do “delivery” também é um bom exemplo. Então dominar os recursos da informática, da conectividade e comunicação será uma habilidade e conhecimento necessário para todos.

Outra análise do ponto de vista de política de desenvolvimento que vai acontecer em muitos países será o processo de reindustrialização. Isso devido, como é possível perceber, aos problemas provocados pela falta de produtos essenciais para o setor de saúde, demais setores e para a população, com o objetivo de mitigação e enfrentamento da pandemia do Covid-19. Fica claro então que muitos países terão um protocolo sobre pandemia. Isso será um aprendizado devido ao problema que a sociedade está passando. Neste sentido, a reindustrialização será uma questão de política de Estado, de segurança nacional. Muitos setores e suas indústrias serão incentivados a desenvolverem as suas cadeias produtivas com fornecedores locais, sobretudo de micro, pequenas e médias empresas. Por meio desta lógica e observando as propostas econômicas de vários países sobre a mitigação dos efeitos econômicos da pandemia do Covid-19, é possível observar que as micro e pequenas empresas aparecem como prioridade e preocupação de vários governos, com vista em desenvolver medidas para manutenção das suas atividades econômicas e dos respectivos empregos. As micro e pequenas empresas são responsáveis pela maioria dos empregos em vários países no mundo, sendo então uma tendência a elaboração de políticas de Estado de fomento para estas organizações como também de desenvolvimento da capacidade empreendedora na população. O que cabe aos profissionais então é desenvolver o seu perfil empreendedor, aprendendo características, conhecimentos e habilidade empreendedoras. Podendo o trabalhador se posicionar no mercado de trabalho como um empreendedor ou intraempreendedor. Este último é o profissional que empreende negócios de terceiros, trabalhando como colaborador.

Seguindo a tendência de uma economia menos dinâmica e com escassez de recursos, as atividades de reciclagem, reaproveitamento e reutilização tendem a crescer, neste sentido as empresas, empreendedores e profissionais que desenvolverem conhecimentos e habilidades sobre o tema da “economia circular” terão uma boa oportunidade de trabalho e negócios. Alguns setores como o de saúde, higiene e segurança que estão sendo muito demandados atualmente serão uma tendência de futuro, então fazer parte das cadeias produtivas destes setores será um bom negócio para profissionais e empresas. Para isso será necessário a integração entre setores, a adaptação e conversões industriais e profissionais, comerciais e de serviço. Será necessário a utilização da lógica da convergência setorial por meio da integração das cadeias produtivas.

A Convergência Setorial pode ser uma boa lógica e ferramenta de mudanças dos modelos de negócios e perfis profissionais, visto que a atuação convergente quebra as barreiras entre setores e profissões, seus produtos, serviços e soluções, promovendo uma atuação sistêmica e não fragmentada. O importante na lógica da convergência é saber que soluções específicas para problemas econômicos e sociais devem considerar o impacto no sistema como um todo. A convergência setorial promove a integração entre setores econômicos que muitas vezes não se enxergam como parceiros, mas podem ser complementares e correlatos. Se integrados é possível alavancar a cadeia de valor das empresas por meio das inter-relações e cooperação, com foco na criatividade, inovação, melhoria de processos, marca, produtos e serviços.



*Antônio Pinaud


É especialista em Gestão Estratégica pela Escola de Economia da FGV/RJ. Natural de Fortaleza/CE, Antonio Pinaud viveu em Niterói/RJ e chegou a Alagoas em 1983 para coordenar projetos de inclusão social representando o Banco Mundial. No atual Governo de Alagoas, Pinaud ocupou os cargos de secretário de Estado de Desenvolvimento Social de Alagoas e de presidente da Desenvolve (Agência de Fomento do Estado de Alagoas).

 



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