Esportes
Do leito ao pódio: alagoanos vencem obesidade e viram exemplo de superação através do esporte
A nutricionista Lívia Russo Duarte e o empresário Ildefonso Porangaba passaram por cirurgias bariátricas e agora são atletas amadores

Dois alagoanos são exemplos para aqueles que desejam aliar, em meio à corrida do dia-a-dia, saúde e atividades físicas. A nutricionista Lívia Russo Duarte e o empresário Ildefonso Porangaba passaram por cirurgias bariátricas e agora preparam-se para competir em provas amadoras de corrida e triátlon.
Após as respectivas operações, eles aprimoraram a prática esportiva e os novos hábitos são parte essencial de uma nova, saudável e movimentada rotina, que transformou positivamente a vida dos dois.
Lívia realizou, em fevereiro de 2023, seu procedimento bariátrico com o método sleeve, quando parte do estômago é retirada definitivamente, sem possibilidade de reconstrução.
De lá pra cá, muita coisa, além dos 40kg perdidos, mudou em sua vida. “Eu ainda estava na faculdade, quando conheci uma pessoa que fez [ a cirurgia], acompanhei a trajetória e vi que não corria nenhum risco, querendo ou não a gente tem inseguranças e medos”, conta.
A partir das primeiras consultas, a cirurgia foi marcada, mesmo sem dizer nada a familiares e amigos, devido a vergonha e ao medo de ser desencorajada. Ela fez todo o pré-operatório e consultas com profissionais de diferentes áreas, prática necessária para garantir a segurança física e psicológica dos pacientes.
“Pelo meu IMC eu precisaria de alguns agravantes, para fazer a cirurgia. Fui investigar e descobri coisas que eu nem sabia que tinha, como esteatose grau 2 [gordura no fígado], apneia do sono, problemas circulatórios, que eu já imaginava que tinha devido às pernas que inchavam, e tinha ainda toda a parte psicológica, de compulsão alimentar e de altos e baixos emocionais pelo ganho de peso, que na pandemia aumentou ainda mais”.
Ela conta que esses agravantes, à época desconhecidos em termos clínicos, faziam com que ela não praticasse esporte e sentisse dores, o que a desestimulava ainda mais em levar uma vida mais ativa.

A vontade de adquirir uma mudança no estilo de vida e conquistar seus objetivos pessoais relacionados à saúde e qualidade de vida foi o impulso que Lívia precisava para um recomeço, mas ela sabia que o resultado não seria milagroso. “Eu tenho duas filhas, então queria passar uma realidade e exemplo bons para elas. Eu sabia que tinha que mudar de vida e a cirurgia foi o start”, revela.
Após o procedimento, acompanhada e incentivada pela equipe multidisciplinar formada por médicos, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionista, ela foi liberada para a caminhada logo após a cirurgia e daí não parou mais.
“Comecei a ir para academia todos os dias, aeróbico e musculação e com o tempo comecei a fazer mais exercícios e comecei a correr. Queria realizar o sonho de correr alguns quilômetros sem parar e, depois, hoje sou meia-maratonista e corredora de rua”.
Natural do Rio de Janeiro, Lívia mora em Alagoas há mais de 20 anos. “Sou alagoana de coração”, brinca. A agora corredora pratica o esporte ao menos quatro vezes por semana, acompanhado de treinos de musculação.
“Graças a essa dedicação, as pessoas dizem que eu não pareço ter feito bariátrica. As pessoas falam e colocam que eu vou ter problemas futuros”, diz a nutricionista. “Essa foi a melhor escolha que eu fiz na minha vida. Consegui mudar de vida. Melhorou minha saúde, hoje me alimento bem e faço exercícios regularmente”, garante.
Para ela, a maior felicidade é conseguir quebrar barreiras que antes eram impostas pela condição física, adquirir novos objetivos com relação à saúde e dar exemplo para as filhas Lis e Otávia, de 13 e 10 anos, respectivamente.

Aos 3 anos da realização da cirurgia bariátrica, o empresário alagoano Ildefonso Porangaba vê no procedimento o ponto de partida para uma transformação completa em sua vida. Antes sedentário, ele passou a incorporar a prática esportiva como parte da rotina e hoje se prepara para o seu primeiro Ironman — uma das provas mais desafiadoras do triatlo.
“Fiz a cirurgia dia 19 de fevereiro de 2022 e perdi 60 quilos. Antes, eu era totalmente sedentário. Hoje, graças a Deus, sou triatleta”, contou Ildefonso. Desde então, já participou de diversas provas, incluindo corridas de rua e triatlos realizados em Alagoas. Agora, planeja competir fora do estado.
Segundo ele, conciliar os treinos com a vida empresarial é um desafio constante, mas a dedicação ao esporte se tornou inegociável. “Todo dia eu preciso fazer uma ou duas atividades. A parte difícil é equilibrar com o trabalho, mas a gente dá um jeito”, afirma.
Para quem está em busca de mudança, ele destaca a importância da disciplina como fator essencial. “A evolução no esporte depende disso. E a disciplina que você desenvolve nos treinos acaba refletindo em outros aspectos da vida também, como o autocuidado e a gestão do tempo”, aconselha.
Autonomia e liberdade
Responsável pelos procedimentos cirúrgicos dos dois atletas, o médico cirurgião Victor Cardoso, referência em procedimentos bariátricos em Alagoas, explica que a obesidade não pode ser encarada como uma simples questão estética ou de força de vontade. “Ela é uma doença que tem código na Classificação Internacional de Doenças [CID E66], está associada a pelo menos 40 complicações, como hipertensão, diabetes, infarto, AVC, infertilidade, ansiedade e até câncer em mulheres”, destaca o cirurgião.
Com mais de 40 anos de história no Brasil, a cirurgia bariátrica se tornou mais segura nas últimas duas décadas, principalmente com o avanço da videolaparoscopia e da cirurgia robótica. “Hoje, temos menos de 1% de complicações. O paciente tem alta precoce e volta rapidamente às atividades”, afirma Victor.

Mas o procedimento é apenas o começo. Segundo o médico, o primeiro ano após a cirurgia é marcado por perda significativa de peso — incluindo massa magra, o que torna essencial a prática de exercícios físicos. “Sem atividade física e mudança no estilo de vida, o paciente pode regredir, principalmente após os 12 primeiros meses, quando o efeito da cirurgia entra em uma fase de estabilidade”, explica.
No caso de Idelfonso e de Lívia o esporte não só ajudou na recomposição muscular como também virou símbolo de transformação pessoal. “É importante que a pessoa encontre uma atividade com a qual se identifique. Se for algo por obrigação, a chance de abandono é grande. A prática precisa ser contínua e prazerosa”, orienta Victor.

Ele ressalta que nem todos os pacientes precisam passar por cirurgia. “O tratamento clínico com acompanhamento nutricional e endocrinológico por dois anos é obrigatório antes da indicação cirúrgica. Mas quando há falha nesse processo e o IMC é acima de 35 com comorbidades, ou maior que 40, a cirurgia é recomendada”, diz. Há ainda casos específicos, como o de pessoas com diabetes tipo 2 mal controlado, em que o procedimento pode ser indicado mesmo com IMC entre 30 e 35.
A combinação de cirurgia, alimentação saudável e rotina de exercícios tem permitido que pacientes antes limitados pela obesidade conquistem autonomia, saúde e, em alguns casos, medalhas. Para o médico, é isso que torna o esporte essencial no processo de recuperação. “A bariátrica não é um fim. É um recomeço”.
Mente sã, corpo são
Para o psicólogo esportivo Matheus da Silva Ramos, que possui pós-graduação em Psicologia do Esporte e do Atleta de Alto Rendimento e que há um ano e meio atua com atletas das categorias sub-13 e sub-15 do CRB, em Maceió, a saúde mental tem um papel determinante tanto no rendimento esportivo quanto na transformação de estilo de vida.

Matheus defende que o acompanhamento psicológico é fundamental para quem busca melhorar o corpo e a mente.
“O mais importante é encarar a mudança como algo próspero. A gente sabe que é muito difícil sair de um estilo de vida para outro. A psicologia ajuda nisso, especialmente no foco e nas metas. Muitas vezes, a pessoa não sabe traçar objetivos de curto, médio e longo prazo, e esse suporte é essencial para que o processo de mudança não seja interrompido”, explica.
Segundo ele, o processo de emagrecimento ou adoção de uma rotina saudável envolve mais do que decisões pontuais: exige constância e consciência. “Não é só tirar algo do prato. A mudança de estilo de vida leva tempo, às vezes três, quatro meses para apresentar resultados visíveis. A psicologia ajuda a manter esse compromisso, mesmo quando os frutos ainda não apareceram”.
Boom de ansiedade
Matheus também observa um crescimento no interesse por saúde e bem-estar em Alagoas, especialmente com a popularização da corrida de rua. “A corrida virou um fenômeno. Não só por status, mas porque as pessoas têm buscado se cuidar mais, até como resposta ao aumento dos casos de ansiedade e outros problemas de saúde mental. O exercício é uma fuga, libera hormônios, melhora o humor. E estar num grupo, num ciclo social, também fortalece esse processo”, destaca.
Apesar disso, ele chama atenção para o aumento das doenças da mente: ao mesmo tempo em que cresce o interesse por práticas esportivas e pela busca por uma vida mais saudável, também se registra um aumento expressivo nos casos de ansiedade e outros transtornos mentais. Para ele, o esporte surge como uma das principais formas de enfrentamento a esse cenário, por promover a liberação de hormônios ligados ao bem-estar e por oferecer uma estrutura de convivência social que fortalece o emocional. “A saúde física e a saúde mental estão entrelaçadas. O corpo em movimento ajuda a equilibrar a mente, e o esporte tem sido uma fuga para muita gente”, afirma.
Para ele, o esporte e a terapia podem andar juntos, e o papel do psicólogo é justamente integrar essas dimensões. “Quando a pessoa se insere em um grupo, quando tem uma rotina ativa, isso impacta diretamente na saúde mental. A convivência, o sentimento de pertencimento, tudo isso é terapêutico. E o psicólogo pode ajudar a manter esse equilíbrio”, conclui.
