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Projeto musical alagoano leva 'versos livres' para local que foi palco de violência policial

A cantora alagoana Huná levou canção para projeto independente "FreeVerse" com música sobre sobrevivência nas comunidades de Maceió

Por Malu Arruda* 25/02/2025 17h05 - Atualizado em 25/02/2025 18h06
Projeto musical alagoano leva 'versos livres' para local que foi palco de violência policial
Huna Voz em Vergel do Lago durante gravação do audiovisual - Foto: Reprodução/Instagram

O Projeto independente alagoano “FreeVerse” traz resistência como fonte inspiradora para os versos cantados pela artista Huná, no Bairro Vergel do Lago, em Maceió, com a música intitulada “A RUA É O CORRE”. O projeto utiliza do Hip-Hop e do audiovisual para retratar vivências nas comunidades da capital alagoana.

O clipe de Huná foi gravado um dia depois de três pessoas, sendo duas crianças e um adolescente, terem sido baleados durante uma abordagem policial no bairro há menos de duas semanas. Na canção intitulada "A rua é o corre" a cantora fala sobre a sobrevivência nas comunidades e as dificuldades impostas por uma desigualdade social severa na rotina e dia a dia dos moradores da periferia de Maceió. 

Após a introdução da música trazer uma manchete jornalística que aponta Maceió como a cidade mais violenta, com incursões policiais diárias nas ruas das comunidades, Huná inicia seus versos com a percepção pessoal de uma jovem que cresceu com a iminente chegada do medo: "Eu vim do berço da favela cresci vendo o mundo, menina preta, pai da igreja, tem que ver futuro. Quem nada teme um dia na vida passa a temer, é só crescer mais um pouquinho que vai perceber", rima a MC no clipe em preto e branco onde sua roupa brilhante contrasta com o cenário de fundo onde crianças correm descalças.

Este foi a 6ª edição do "Freeverse". Antes de Huná passaram pelas telas do projeto outros cinco artistas alagoanos: Bianca Lavez, MG Alvezz, 0fftheus, Jotap Mc e Kvtrapstar, sempre com a estética em preto e branco, retratando versos livres de artista do hip-hop undeground de Alagoas.

Huna compartilhou nas redes sociais sua felicidade por participar do projeto:

“Esse ano eu tenho pensado muito em propósito, em essência e em como podemos não só fazer uma música ser viral, mas como ela pode realmente tocar quem queremos que ela toque. Pensando e agindo, trocando e deixando que as coisas boas nos atravessem. E foi isso que aconteceu quando @freeversemcz me chamou p esse projeto, eu pensei: meu Deus, era exatamente o que eu queria trazer agora. E eu tô muito empolgada com esse trabalho, ficou lindo e é a primeira vez que eu direciono minhas poesias de rua para uma composição, um som de alma mesmo.”

Os clipes do projeto FreeVerse podem ser vistos no instagram da página (@freeversemcz)

Crianças baleadas no Vergel

Na noite de 13 de fevereiro uma abordagem policial próximo ao residencial Parque da Lagoa, no Vergel do Lago, terminou em tiros e correria. Segundo relato de militares envolvidos na ocorrência, o caso aconteceu quando eles tentavam prender um homem suspeito de violência doméstica, que reagiu à ação.

Os militares disseram que a guarnição foi acionada três vezes no mesmo dia para atender à denúncia de agressões contra uma mulher. Em todas as ocasiões, o suspeito conseguiu fugir antes da chegada dos policiais.

Por volta das 21h, ele foi encontrado no local e recebeu voz de prisão, mas avançou contra os militares, tentando pegar a arma de um deles. Os policiais disseram que deram ordem para que ele parasse, mas não foram atendidos. Para conter o homem, um dos militares efetuou um disparo na direção das pernas do suspeito, que conseguiu fugir. Os PMs disseram que o tiro ricocheteou e a bala atingiu duas crianças que passavam pelo local, sendo atingidas nas pernas.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que a Polícia Militar já iniciou a apuração dos fatos para esclarecer todas as circunstâncias da ocorrência. A nota diz ainda que apenas um disparo foi efetuado (leia na íntegra ao final do texto).

Uma das crianças atingida disse que estava na rua com um grupo de amigas quando sentiu o disparo na perna. "A gente estava conversando e depois fomos brincar. Aí pegou na gente [o tiro]. Só senti na hora e saí chorando e gritando. Senti muita dor, estava ardendo. Não vi quem atirou", disse uma delas.

As vítimas, de 11 e 12 anos, foram socorridas pelos próprios policiais e levadas ao Hospital Geral do Estado (HGE). Segundo os militares, os ferimentos foram superficiais e elas já receberam alta.

Uma adolescente de 17 anos também procurou atendimento médico alegando ter sido atingida, mas os militares disseram que não a viram no momento do disparo. 

*Estagiária sob supervisão