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Brasil está lendo menos e Bíblia ainda é o livro preferido, aponta pesquisa


Fonte: O Globo

11/09/2020 13h00

Os brasileiros estão lendo menos, aponta a pesquisa "Retratos da Leitura", divulgada nesta sexta-feira. Segundo o estudo, o país perdeu 4,6 milhões de leitores em quatro anos: em 2019, 100,1 milhões de pessoas — isto é, 52% da população — tinham o hábito de ler. Quatro anos antes, a leitura era praticada por 56% dos brasileiros. A pesquisa também apontou que as crianças de cinco a dez anos estão lendo mais, na contramão de todas as outras faixas etárias, e que a Bíblia ainda é o livro mais lido no país.

Realizado pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Itaú Cultural, o estudo considera como leitores as pessoas que leram pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos três meses anteriores ao levantamento dos dados, realizado entre outubro de 2019 e janeiro de 2020. Foram realizadas 8.076 entrevistas, em 208 municípios de 26 estados.

Cinco livros por ano

Apesar da queda no número de leitores, o brasileiro manteve a média de livros lidos por ano: são cerca de cinco obras por pessoa, sendo metade delas lidas integralmente e metade, de forma parcial. Dois em cada três brasileiros que leem costumam largar um livro sem terminá-lo, e 28% dos leitores leem mais de uma obra ao mesmo tempo.

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No ano passado, 108,7 milhões de brasileiros — ou seja, 56% da população — disseram ter lido pelo menos um livro, inteiro ou em partes. O número é menor do que o registrado em 2015, quando 115,9 milhões de pe0ssoas (62% do país) leram pelo menos uma obra. Em relação aos que leram pelo menos um livro de literatura, o índice é ainda mais baixo: apenas um a cada três brasileiros o tinham feito.

Quanto aos gêneros, os brasileiros continuam lendo mais a Bíblia (35%), seguida por contos (22%), livros religiosos (22%), romances (22%) e livros didáticos (16%). Nos últimos anos, houve um aumento na leitura de poesia, que, ao lado dos contos, se tornou o gênero mais lido por crianças de 11 a 13 anos — a faixa etária que mais lê no país (81%), seguida pelas de cinco a dez. Os gêneros literários encontram maior penetração entre os jovens de até 29 anos. Já a população acima de 30 dá preferência aos livros sobre a fé.

Pela primeira vez, a pesquisa fez um recorte de raça, que apontou que pessoas brancas leem mais do que negras. Enquanto a população leitora compreende 55% do total de brancos, o índice cai para 52% dos pardos e 48% dos pretos.

Crianças leem mais, jovens leem menos

De acordo com o estudo, as crianças de cinco a dez anos formam a única faixa etária cujo número de leitores cresceu em 2019: o índice saltou de 67% para 71%, o que representa cerca de 300 mil novos leitores mirins.  A maior queda foi registrada na faixa de 14 a 24 anos: em 2019, havia 3,3 milhões de jovens e adolescentes leitores a menos do que quatro anos antes.

O Sudeste, que em 2015 tinha a maior população leitora (61%), apresentou a maior queda entre as regiões no ano passado: dez pontos percentuais. Foi ultrapassado pela região Norte, que alcançou o primeiro lugar, com 63% de leitores. O Sul também cresceu, de 50% para 58%. Já os leitores do Centro-Oeste e do Nordeste caíram para menos da metade da população das duas regiões: eram, respectivamente, 46% e 48% em 2019.

Apesar de ainda ser a principal forma de acesso aos livros, a compra em lojas físicas ou pela internet apresentou uma ligeira queda: foi de 43% para 41% em 2019. Nos três meses que antecederam a pesquisa, apenas 44 milhões de brasileiros (23%) haviam comprado algum livro. Em 2015, o índice era de 26%.

Os compradores se concentram nas faixas de maior renda da população, correspondendo a mais da metade da classe A (52%), e a apenas 10% das classes D/E. Em contrapartida, aumentou o índice de pessoas que têm no download de livros seu principal acesso à leitura: de 9% para 13%. Entretanto, 67% ainda preferem os livros de papel, contra 17% que opta pelo formato digital.

De acordo com a pesquisa, 37% da população brasileira já leu livros digitais — a maioria pelo smartphone (73%) —, mas apenas 18% afirmou pagar pelas obras baixadas. A maioria dos leitores de livros digitais pertencem às classes B e C, e possuem Ensino Médio ou Superior.

País lê menos por vontade própria

Os brasileiros também estão lendo menos por vontade própria. Em 2015, esse grupo representava 56% da população; caiu para 51% no ano passado. Apesar disso, a cada 10 brasileiros, sete dizem gostar “um pouco” ou “muito” de ler; dois afirmam não gostar; e um não sabe ler ou não respondeu.

É justamente o gosto pela leitura a principal motivação para o hábito, de acordo com 26% dos leitores brasileiros. Crianças de cinco a dez e pré-adolescentes entre 11 e 13 anos são os que mais leem porque gostam — respectivamente, 48% e 33% deles o fazem —, em contraste com os jovens de 18 a 24 anos (17%) e aos idosos com mais de 70 (10%).

O desejo de crescimento pessoal aparece como a segunda razão para a leitura mais mencionada (17%). O índice teve um salto de sete pontos percentuais em relação a 2015, puxado pelos adultos entre 18 e 49 anos e pela população com ensino superior.

Classes e escolaridades mais altas puxam queda

Segundo a socióloga Zoara Failla, coordenadora da pesquisa, uma das justificativas para a diminuição da leitura no país é o fato de pessoas de classes e escolaridades mais altas estarem substituindo os livros pela internet. Historicamente, estes segmentos concentravam o maior número de leitores, mas registraram as mais fortes quedas em 2019: 14 pontos percentuais entre aqueles com formação universitária (totalizando 68%); nove e sete entre leitores das classes A e B, respectivamente (totalizando 67% e 63% dessa população).

— Esse grupo com ensino superior e de maior renda era o principal leitor nas edições anteriores da pesquisa. Hoje, ele é o principal consumidor de mensagens e redes sociais. Esse despertar da internet está roubando o tempo do livro — explica Zoara.

A forma como o brasileiro usava seu tempo livre em 2019 acompanhou a tendência dos últimos anos: perde força a televisão (67%, contra 73% antes) e cresce o uso da internet (66%, contra 47% em 2015) e do WhatsApp (62%, contra 43% em 2015). A leitura de livros em papel ou digitais manteve-se no mesmo patamar (24%).

A falta de tempo é o principal motivo elencado tanto por leitores (47%) quanto por não-leitores (34%) para o fato de não terem lido mais. Entre estes últimos, 28% afirmam não ler mais porque “não gostam”, e 14%, porque “não têm paciência”. As dificuldades na leitura também são preocupantes: 19% dos brasileiros reclamam de ler muito devagar, enquanto 13% se queixam de falta de concentração. Uma a cada dez pessoas afirma não compreender a maior parte do que lê.

Na avaliação do diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, os dados refletem um quadro de analfabetismo funcional, que afeta a qualificação profissional do brasileiro:

— A preguiça e o tempo que se demora para ler permeiam o analfabetismo funcional do país. A leitura é fundamental para o ensino. Sem ela, não há matemática, história, geografia — lembra. — Ela também é determinante para a empregabilidade das pessoas: não adianta ter programa de qualificação profissional se não há domínio do campo das letras.

Literatura: contos são os preferidos

Pela primeira vez, a “Retratos da Leitura” trouxe um recorte específico para os leitores de literatura. Segundo o estudo, a maior parte deste grupo começou a se interessar por obras literárias por causa de indicações da escola, professores ou amigos, ou porque viu filmes baseados em livros. Os autores preferidos são Machado de Assis, Monteiro Lobato, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Coelho, e 60% dos leitores de literatura afirmam ler mais de um livro do mesmo autor.

O gênero preferido do brasileiro que lê literatura é o conto, seguido pela poesia, as crônicas e os romances. A maioria do grupo prefere comprar livros em livrarias físicas (48%), pela internet (24%) ou em sebos (15%).

No entanto, as obras alcançaram um espaço considerável através de outras plataformas que não o livro. O WhatsApp, por exemplo, concentra respectivamente 28% e 26% da leitura de contos e de poemas entre os alfabetizados, mais até do que sites na Internet (que somam respectivamente 26% e 22%). As redes sociais, como Instagram e Facebook, são as preferidas dos amantes de poesia: 27% dos leitores leram versos através delas.

 



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